14.03 Sampaio precoce

2. António Rodrigues Sampaio precoce: do nascimento à primeira imersão no jornalismo

António Rodrigues Sampaio nasceu em 1806, no dia 25 de Julho, em São Bartolomeu do Mar, Esposende, tendo falecido em 1882, a 13 de Setembro, em Sintra. Foi, no dizer de Tengarrinha (2006, p. 137), o principal arquétipo do jornalismo romântico em Portugal, tanto quando o jornal que dirigiu, A Revolução de Setembro, foi o mais influente entre os periódicos do seu tempo.

O Romantismo, efectivamente, vinha agitar as águas. A nova literatura, graças a Alexandre Herculano e a Almeida Garrett, e o novo jornalismo romântico, métier no qual, para além dos dois escritores anteriores, pontificou António Rodrigues Sampaio (mas também José Estêvão e outros), representou uma autêntica ruptura com os hábitos do país. Idêntica posição é assumida por António José Saraiva e Óscar Lopes (1979, p. 723 e 811):

 

A introdução da nova literatura do Romantismo é uma revolução comparável, pelas suas consequências radicais e pela sua quebra de continuidade com o passado, à revolução política de 1832-1834.

(...)

O êxito fulminante de Herculano e de Garrett, o esquecimento rápido e geral em que caíram os géneros clássicos, mostram como esta mudança (...) correspondia a uma mudança no público. Existia na realidade um público alfabetizado cujas características e predilecções se podem avaliar pelo êxito de revistas como o Panorama (5000 exemplares vendidos por número em 1837). O jornalismo conhece nesta época uma fase brilhante, dando aos grandes escritores (Garrett e Herculano incluídos) ocasião de comunicar com muitos leitores. Homens como Rodrigues Sampaio, redactor de A Revolução de Setembro e de O Espectro (...) viveram profissionalmente como jornalistas de opinião e encontraram larga receptividade no público em geral. Porventura o melhor representante em Portugal do tipo de escritor sintonizado com a grande massa do público, dando expressão a aspirações colectivas, sentindo-se condutor da opinião pública e evidenciando essa posição no seu estilo, altissonante e profético, é [Alexandre] Herculano no conjunto da sua obra.

(...)

Como notámos, a grande importância literária do jornalismo está sobretudo ligada ao impulso que imprimiu a outros géneros literários através do próprio público. Isto vale também para a eloquência. Alguns dos grandes escritores românticos foram simultaneamente grandes oradores parlamentares.

 

Rodrigues Sampaio fez estudos eclesiásticos, conforme sucedia na altura com muitos jovens, e chegou a tomar ordens menores no convento dos Carmelitas de Viana do Castelo, em 1821. A partir de 1822, ano em que foi promulgada a primeira Constituição[1] do país, de pendor liberal, estudou Humanidades e Teologia, em Braga, curso que concluiu em 1825. Diga-se, aliás, que sua formação de seminarista nas artes da prédica (recordemos Sampaio Bruno – o jornalista doutrinário é o pregador dos tempos modernos) e no latim teve uma forte influência no estilo que viria a cultivar no jornalismo.

Nesse mesmo ano de 1825, Sampaio, por não ter idade para ser ordenado subdiácono, regressou à casa paterna, tendo, então, começado a ensinar gratuitamente crianças e jovens da vizinhança. Esta sua experiência oficiosa e rudimentar de ensino levá-lo-ia, futuramente, a tornar-se um feroz adepto da necessidade de prover à instrução pública de crianças e jovens. Inclusivamente, já no auge da sua carreira política, promulgaria uma nova Lei do Ensino Primário, da qual foi o principal mentor.

Por várias vezes pregou em igrejas, mas quando chegou à idade de ser ordenado sacerdote, o pedido foi-lhe recusado pelo arcebispo de Braga, possivelmente por já ser do conhecimento eclesiástico que Rodrigues Sampaio seria adepto das ideias liberais, num tempo de retorno ao absolutismo. Aliás, foi preso, aos 22 anos, em 1828, no início do reinado de D. Miguel I, suspeito de ser simpatizante da causa liberal. Ficou na prisão dois anos e meio, tempo em que poderá ter confraternizado com o padre liberal Inácio José de Macedo, redactor do Velho Liberal do Porto. Eventualmente, teria sido este a rever os primeiros artigos que Sampaio escreveu, já em 1835, para A Vedeta da Liberdade. Mas Neiva Soares (1982, p. XII) tem outra opinião: “A análise (...) das fontes e circunstâncias leva a rejeitar tal asserção, até por o referido padre Inácio só ter sido preso em Lisboa, em 1829, donde foi recambiado para o Porto.” No entanto, o mesmo autor avança com a hipótese de Sampaio ter aproveitado a prisão para estudar inglês, pelo que poderia ter lido aos companheiros de cárcere as notícias dos jornais ingleses que lhes chegavam às mãos. Aliás, em 2006, Neiva Soares escreve numa nota de rodapé: “Afirmam os seus biógrafos que durante a prisão, na Relação do Porto, colaborara em jornais internos onde punha os reclusos a par dos principais acontecimentos políticos nacionais e estrangeiros, recorrendo à imprensa francesa e inglesa” (NEIVA SOARES, 2006, p. 67).

Libertado em 1831, António Rodrigues Sampaio foi trabalhar no escritório de advocacia do seu companheiro de cárcere Manuel José Ferreira Tinoco, em Barcelos, familiarizando-se, assim, com o direito português e a vida judiciária do Reino (TEIXEIRA DE VASCONCELOS, 1859, p. 49; FIGUEIRA, 1882, p. 14).

Em 1832, Sampaio juntou-se às tropas liberais de D. Pedro[2], que tinha abdicado do Trono brasileiro para reconduzir a sua filha, D. Maria II, no Trono português, em poder do seu irmão absolutista D. Miguel, e para recolocar em vigor a Carta Constitucional que ele mesmo havia outorgado ao Reino, em 1826, em substituição da Constituição de 1822. A guerra civil terminou com o triunfo liberal, mas a vitória não veio resolver os problemas do país. Qual a conjuntura da época? António José Saraiva e Óscar Lopes (1979, p. 722-723) respondem:

 

A partir de 1820 acentua-se a luta entre a burguesia e as camadas detentoras de bens feudais. Em 1832-1834, as leis de Mouzinho abolindo os direitos senhoriais e as de Joaquim António de Aguiar confiscando totalmente os bens da Igreja e extinguindo as ordens religiosas decidem esta luta, instaurando novas relações sociais no campo. A nova burguesia de proprietários rurais erige-se em grupo governante, drenando mesmo em seu proveito alguns direitos feudais remanescentes.

 

Terminada a guerra civil, António Rodrigues Sampaio obteve emprego na alfândega do Porto, mas fez-se substituir por um serventuário, a quem pagava quatro tostões (NEIVA SOARES, 1982, p. XIV), conforme era usual na época. Livre desse encargo, passou, então, a dedicar-se quase a tempo inteiro ao periódico A Vedeta da Liberdade, um jornal doutrinário liberal de esquerda, fundado em Maio de 1835[3], propriedade de José de Azevedo Gouveia Mendanha, que tinha por redactor principal o abade de Valbom, José António do Carmo Velho de Barbosa, mais conhecido por Padre Vedeta. Vivia modestamente dos dois tostões que lhe sobravam do salário da alfândega e do que lhe pagavam pelos artigos (NEIVA SOARES, 1982, p. XIV).

Sampaio entrou para a redacção do Vedeta da Liberdade como tradutor de notícias estrangeiras logo após a fundação do jornal. Eis um texto[4] que poderá ser da sua autoria:

 

Segundo as últimas notícias de Madrid, parece que o grande movimento acabou; mas será só aparente ou real o seu acabamento? O Povo que não tolerava meias medidas, que não estava satisfeito com os actuais ministros, com a censura prévia e outros exteriores do absolutismo, ficará tranquilo com a nomeação de alçadas e medidas repressivas e continuação dos mesmos abusos, abusos que têm dado motivo aos extraordinários sucessos de Madrid, aos de outras muitas cidades e às juntas que em várias partes se têm instalado? Não o cremos. Este espírito de repressão num Governo sem força moral, como é a actual da Espanha, e que marcha em oposição aos desejos do todo da Nação, deve sucumbir debaixo da opinião pública, e os seus actos de rigor, bem longe de acalmarem os espíritos, só servirão de fomento a uma conflagração geral. Demais, um governo que faz a paz com os revoltosos para depois os castigar, mostra toda a sua debilidade e faz conhecer que só traiçoeiramente pode exercer ou a sua autoridade, ou a sua vingança; enfim, que não tem força física, nem moral e que a última hora da sua existência não tarda muito a tocar e que a época da verdadeira Liberdade vai ter princípio. (Vedeta da Liberdade, 28 de Agosto de 1835)

 

 

Depois da saída do abade de Valbom do Vedeta da Liberdade, em conflito com o proprietário, António Rodrigues Sampaio foi escolhido para redactor principal[5] (TEIXEIRA DE VASCONCELOS, 1859, p. 53-54). Tal como é visível no texto anterior, que estilo cultivou então[6]? Responde o maior historiador da imprensa portuguesa oitocentista, José Manuel Tengarrinha (2006, p. 140):

 

Como jornalista, o seu estilo caracteriza-se por ser muito directo, vigoroso e tenso, mesmo por vezes com alguma brutalidade, na linha da tradição polemista do nosso jornalismo (tão diferente do britânico e francês), mas ao mesmo tempo com uma elegância onde está sempre presente a influência dos clássicos. De resto, os exemplos da história clássica e os pensamentos de autores gregos e latinos estão constantemente presentes nos seus escritos (...). Mas a força, impetuosidade e apaixonado arrebatamento do seu estilo em defesa de grandes causas (...) constituem (...) o traço profundo do nosso Primeiro Romantismo.

No plano do jornalismo, deve ser considerado um dos maiores polemistas da nossa história. Mas, para além disso, o seu valor e projecção como homem de letras ultrapassa a transitoriedade jornalística para o situar (...) entre os primeiros escritores oitocentistas portugueses e o que melhor protagoniza o ideal romântico da nossa Imprensa.

 

António José Saraiva e Óscar Lopes (1979, p. 811-813) evidenciam as razões da fusão que o Romantismo promoveu, na literatura, no jornalismo e na oratória, entre a “eloquência sacra”, cultivada no período anterior à Revolução Liberal de 1820, a linguagem jurídica e o panfletarismo, que emergiram no período subsequente ao triunfo liberal:

 

A solução de continuidade desta oratória política relativamente à anterior eloquência sacra é (...) moldada numa linguagem que revela a formação predominantemente jurídica dos seus interventores. Aquilo que hoje talvez mais surpreenda um leitor (...) é o facto de [os discursos], embora (...) mais desproporcionados, irregulares e redundantes do que os da velha oratória sacra ou ciceroniana (a tradição desta última conserva-se (...) nas obras épicas e historiográficas clássicas), manterem uma parte considerável dos recursos retóricos tradicionais, incluindo frequentes alusões históricas e mitológicas greco-romanas e ainda o cunho latinizante de parte do vocabulário. Notemos que a transmissão se fez, tanto através da educação ainda latinista e clerical desses oradores, como através dos modelos da oratória revolucionária francesa. O contraste da eloquência desses tribunos românticos com a de finais do século revela claramente o carácter ainda selecto, socialmente muito restrito, dos debates [parlamentares] de então, que a maior parte do público politicamente curioso não examinava com atenção ou apenas seguia através dos relatos e da imprensa partidária predilecta.

 

A oratória política romântica, que, conforme se verá no decorrer deste trabalho, Sampaio interiorizou e praticou, é efectivamente marcada pelo estilo tribunício, coloquial e declamatório, pelos constantes apelos à emoção, mais do que à razão e à ponderação (estas próprias do Classicismo), pelo empolamento da linguagem e pela exploração imaginativa da hipérbole e da metáfora. De algum modo, Sampaio procurava convencer pela comoção. Carlos Carrasco, Cecília Cunha e Joaquim Pintassilgo (1983, p. 66-67) explicam-no assim:

 

A nova ordem sociopolítica leva os parlamentares e jornalistas liberais a adoptar uma oratória capaz de exaltar a liberdade, a justiça e a valorização do indivíduo, sem nunca conhecer regras e princípios taxativos: ao lado da linguagem empolada sobressaem as expressões familiares e agrestes que iam contra os costumes dos meios polidos da Corte. Por sua vez, a improvisação sobre um tema não preparado, ou a resposta imediata, tornavam inadmissível esse tipo de regras; à frieza e equilíbrio da retórica clássica, opunha-se o calor dos sentimentos em que a pujança da palavra exortava à acção, no desejo de transformar.

 

O estilo de Sampaio reflecte, de resto, a consolidação do surto de oratória política que se verifica pela primeira vez em Portugal durante o vintismo e que se desenvolve, conforme vincaram Saraiva e Lopes (1979, p. 811-812) quer no Parlamento quer nos jornais, tornados verdadeiro espaço de debate público, capazes de estender a um número elevado de pessoas as discussões que ocorriam nas Cortes. O jornalista, cultivando a palavra e tornando-a pública, tornava-se um intérprete activo e influente do seu tempo.

Ligado ao Partido Progressista, de Passos Manuel, António Rodrigues Sampaio começou, a partir da década de trinta do século XIX, a fazer-se notar pela sua intervenção política esquerdista, reforçada pela sua acção, entre 1835 e 1836 (pelo menos), como articulista do Vedeta da Liberdade, um dos jornais mais lidos no Norte de Portugal por ser “porta-voz dos descontentes” (TEIXEIRA DE VASCONCELOS, 1859, p. 58). Foi a sua empenhada acção política, materializada através do jornalismo, que lhe franqueou as portas da Maçonaria, à qual se juntou através da loja Oriente, de Passos Manuel.

Em Setembro de 1836, triunfou uma revolução (conhecida por Revolução de Setembro) que queria a reintrodução da Constituição de 1822, mais liberal do que a Carta Constitucional então em vigor[7]. Quais os factores que impulsionaram a revolução de Setembro de 1836? Essencialmente, segundo Saraiva e Lopes (1979, p. 722) o facto de não terem ficado resolvidos os problemas do campesinato, da pequena burguesia e dos pequenos empreendimentos manufactureiros com o triunfo liberal de 1834:

 

O poder de compra da grande massa de camponeses, que constituíam nesta época a esmagadora maioria da população portuguesa, é muito exíguo. A pequena burguesia e o artesanato, que mal beneficiam da venda dos bens expropriados à nobreza e à Igreja (“bens nacionais”), procuram solução para as suas dificuldades, propondo pautas proteccionistas e outras medidas, como as que visam ao barateamento do crédito. Esta oposição dá origem aos dois partidos que se organizam após a implantação do novo regime: o Partido Cartista, o dos proprietários rurais, aliados aos financistas, que contam com a influência do paço, as prerrogativas régias, a limitação censitária do voto; e o Partido Setembrista, o da pequena burguesia industrial, que conta com o apoio das maiorias eleitorais urbanas e cria, com a sua breve ditadura de 1836, as condições de um pequeno surto fabril, imediato. Não existia ainda entre nós um proletariado industrial. (SARAIVA e LOPES, 1979, p. 722-723)

 

António Rodrigues Sampaio, partidário da Constituição de 1822 e do setembrismo, foi, então, nomeado, por intervenção de Passos Manuel (NEIVA SOARES, 1982, p. XVI), secretário da administração-geral do distrito de Bragança, cargo que desempenhou até 1839, ano em que foi escolhido para o posto de administrador-geral do distrito de Castelo Branco (equivalente ao cargo actual de governador-civil). Porém, por pouco tempo se ocupou da incumbência, por causa de um conflito político com a Câmara Municipal, o que levou à sua demissão pelo ministro Rodrigo da Fonseca Magalhães. Paradoxalmente, este viria a converter-se em seu amigo e admirador (FIGUEIRA, 1882, p. 15).



[1] Constituição liberal inspirada na Constituição francesa de 1791 e na Constituição espanhola de Cádis, de 1812.

[2] D. Pedro IV de Portugal e D. Pedro I do Brasil.

[3] O último número do Vedeta da Liberdade foi publicado a 31 de Dezembro de 1839, mas, nessa altura, Sampaio já não colaboraria com ele. Provavelmente, a sua colaboração com o Vedeta ocorreu somente entre a fundação do jornal, em 1835, e o momento em que rumou a Bragança, em 1836.

[4] O texto em causa refere-se à instabilidade provocada pela Primeira Guerra Carlista (1833-1840), motivada pela ascensão ao Trono da Rainha Dona Isabel II, uma criança, sob a regência da Rainha Dona Maria Cristina de Bourbon, após a morte de D. Fernando VII, um Rei que tinha conseguido restaurar o absolutismo. O irmão de D. Fernando, D. Carlos, não acatou a sucessão e invocou a Lei Sálica para contestar a outorga do Trono a Dona Isabel II, dando início à guerra civil. Os liberais agruparam-se em torno da regente e da Soberana, Dona Isabel II; os absolutistas juntaram-se a D. Carlos.

[5] Será dele, nomeadamente, o artigo “Estado político de Portugal depois da morte do Dador da Carta”, assinado por “O Patriota da Beira-Minho”, publicado a 7 de Setembro de 1836.

[6] Quando queria, Sampaio também sabia escrever com recorte literário, transpondo para o texto a ironia corrosiva que animava muitos dos seus artigos jornalísticos. Assim, a convite de António Feliciano de Castilho, glosou Os Fastos de Públio Ovídio Nasão no célebre texto “Festa dos Parvos” (tomo I, parte II, página 573). Eis uma amostra:

 

O parvo não é uma invenção moderna, é um elemento da civilização histórica. A religião e o paganismo são concordantes neste ponto. As Sagradas Letras atestam que o número de parvos é infinito e que são bem-aventurados, porque é deles o Reino dos Céus [Aqui há uma interpretação errada, muitas vezes repetida, das palavras de Jesus, já que, nas bem-aventuranças, este fala dos que têm espírito de pobreza – os pobres de espírito – e não dos portadores de deficiência mental.] A história profana, pela sua parte, mostra que o parvo também é feliz neste mundo.

(...)

A antiguidade era mais avisada e mais sincera do que nós, porque chamava as coisas pelo seu próprio nome. O parvo moderno resiste à denominação e quer ser considerado à fina força um sábio.

(...)

Há parvos sábios e parvos ignorantes. Os parvos mais parvos são os parvos sábios. (...) O parvo tem admiradores e entusiastas nos mais parvos do que ele (...).

Há parvos mudos e parvos falantes. Os parvos mudos são os que nunca deram provas do seu saber, mas que soltam alguns monossílabos misteriosos, e baixinho, numa roda de outros mais parvos que os contemplam sem os contrariar. Os parvos falantes são os mequetrefes que se intrometem a decidir aquilo que nada entendem.

O parvo enche o mundo de suas façanhas, porque não fala senão de si. Se é militar, julga das campanhas de Alexandre, de César e de Bonaparte, e nota-lhes os erros, mas nunca soube comandar um destacamento (...). Se é juiz, o parvo clama contra a administração da justiça e nunca proferiu sentença que não fosse anulada (...). Se é médico (...), discorre sobre todas as doenças, censura todo o tratamento, mas não há notícia de enfermo que lhe não morresse nas mãos. Se é advogado, o parvo nunca fala senão na letra e no espírito da lei, mas o escritório está deserto, (...) porque (...) não advoga causa que não perca. Se é industrial, o parvo explica (...) todos os segredos do processo da indústria, mas falham-lhe sempre (...) todos os cálculos. Se é candidato em algumas eleições, o parvo tem sempre a seu favor o voto de todos os eleitores, mas consultada a urna só se encontra no fundo um voto a seu favor, que é o dele. Se é jornalista, o parvo não expõe opiniões, profere oráculos, canta a vitória dos seus correligionários em véspera da sua derrota, anuncia a morte dos seus adversários na véspera do seu triunfo, apregoa a estabilidade do Governo que apoia duas horas antes da sua demissão. Exonera os ministros que combate quando o seu poder está mais seguro. Afiança a paz quando está para romper a guerra. Prognostica uma conflagração geral quando as nações desarmam (...). O parvo antigo era o que não sabia nada (...); o parvo moderno não é só o que não sabe, é o que pensa que só ele sabe tudo.

(...)

Cremos (...) que a raça dos parvos não acabará nunca. Se a antiga festa foi abolida, substituiu-a o bolo do orçamento, onde o parvo come sem o risco de queimar o pão (...). Mas se muito come o parvo, mais parvo é quem lho dá (...).

António Rodrigues Sampaio

 

[7] Os revolucionários lograram promulgar uma nova Constituição, em 1838, um documento que emulava a Constituição de 1822, mas com alguns compromissos com a Carta Constitucional.