Carvalho, A. (1932)

CARVALHO, Augusto da Silva (1932). O Jornalismo Médico Português e a Medicina Contemporânea. Separata de A Medicina Contemporânea, 1.

Autor

CARVALHO, Augusto da Silva
Ano de elaboração (caso não coincida com ano de publicação)

Ano de publicação/impressão

1932
Título completo da obra

O Jornalismo Médico Português e a Medicina Contemporânea.

Tema principal [escolher entre:

História do Jornalismo

Local de edição

Lisboa
Editora (ou tipografia, caso não exista editora)

Tipografia Labor (Separata de A Medicina Contemporânea nº1 de 3 de Janeiro de 1932)
Número de páginas

41

Cota na Biblioteca Nacional e eventualmente noutras bibliotecas públicas
Biblioteca: Biblioteca Nacional
Cotas: RJ - 3134

Biblioteca: Biblioteca Pública Municipal do Porto
Cotas: PJ – 12 – 11 (11)

Esboço biográfico sobre o autor ou autores (nascimento, morte, profissão, etc.)

Natural de Tavira, Augusto Silva Carvalho nasceu em 1861 e faleceu em 1957. Formou-se em Medicina pela Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, cidade em que exerceu a arte e em que iniciou a sua longa carreira nos Serviços da Administração Hospitalar. Presidente da Sociedade de Ciências Médicas, professor de História da Medicina a convite da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e sócio efectivo da Academia das Ciências (1928), deixou extensa bibliografia, quer no domínio da clínica cirúrgica, epidemiologia e saúde pública, quer no da História da Medicina em Portugal.

Índice da obra

[Não tem índice.]

Introdução à temática do livro e breve explicação da história do jornalismo médico português: pp. 3-5
O primeiro jornal médico português: pp. 6-13
Jornais e revistas médicos portugueses: pp. 13-30
Estado da medicina em Portugal no final do séc. XIX: pp. 30-31
Revista A Medicina Contemporânea: pp.32-39
Ideias finais e conclusão do livro: pp.40-41

Resumo da obra (linhas mestras)

Esta obra dá-nos a conhecer o início e a história do jornalismo médico português, contada pelo conceituado médico Augusto da Silva Carvalho. O autor começa o livro comentando e explicando o convite que lhe foi feito para falar sobre o assunto do livro (e consequentemente, escrevê-lo). Explica que vai tratar de falar do jornalismo médico português, da sua importância e significação; refere, também, que teve pouco tempo para realizar a tarefa proposta e que podem ocorrer omissões no que toca a informações relevantes.
Seguidamente, Augusto da Silva Carvalho explica qual é a missão dos jornais médicos, afirmando que estes devem exercer uma acção moralizadora e educativa, defendendo os interesses dos médicos, pelo que a sua influência na vida social pode ser grande. Segundo o autor, os jornais médicos prestam outros serviços para além dos acima mencionados, como, por exemplo, subsídios para a organização da história da medicina e para o estudo da epidemiologia moderna e contemporânea, defendendo que a colecção completa dos jornais médicos portugueses devia existir nas bibliotecas públicas e das faculdades – embora só existissem, na altura, algumas dezenas. Para o autor, a biografias e bibliografias médicas sofrem com essa falha.
A publicação do primeiro jornal português, recorda Augusto da Silva Carvalho, deu-se a Janeiro de 1749 e intitulava-se Zodíaco Lusitano Delphico-Anatomico, Botanico, Chirurgico, Dendrologico, Ictyologico, Lithologico Médico, Meteorológico, Óptico, Ornithológico, Pharmaceutico e Zoológico. Afirma que este número é raríssimo pois só foram feitos dois exemplares. Este primeiro periódico continha artigos de casos médicos e de procedimentos tomados em consequência desses, assim como também narrava acontecimentos e se referia a diversos médicos.
Remetendo-nos à história do jornalismo, o autor fala da publicação de um outro jornal (durante os anos de 1764 e 1772) dirigido por Manuel Gomes de Lima, o mesmo director do jornal anteriormente referido. Este jornal tinha o nome Diário Universal de Medicina, Cirúrgica, Pharmacia, etc., que teve três números. Mais uma vez o autor descreve o que o primeiro número do jornal continha (tipos de artigos, sobre que assuntos e que nomes envolviam). À semelhança do referido anteriormente, Augusto da Silva Carvalho fala do segundo número do jornal; este contém mais memórias do que artigos sobre casos médicos e contém também notícias bibliográficas sobre publicações estrangeiras – os autores dos artigos eram associados da Academia Portopolitana; por fim, é referido o terceiro número deste jornal, publicado em 1772 mas referente a Abril de 1764. Este era de maior dimensão, tanto na quantidade de folhas como em tamanho. É um volume raro e desconhecido dos bibliográficos. Mais uma vez descreve o jornal, onde no início se apresenta uma dedicatória a D. José, intercalada com uma crítica do estado da medicina em Portugal. A isso seguem-se referências a diversos jornais em ordem cronológica e fala-se de observações meteorológicas pela primeira vez publicadas pelo jornal Ano Médico de 1796.
O autor fala ainda sobre o primeiro número da revista Biblioteca de Cirurgia (1789), cujo manuscrito se encontra na biblioteca da Faculdade de Medicina do Porto. Daqui para a frente, o autor menciona diversos jornais e revista médicos: Os Anais da Medicina Dinâmica (1832), composto apenas por dois fascículos, só contendo artigos de Lima Leitão; o Jornal das Sciencias Médicas de Lisboa, de Janeiro de 1835, de cuja redacção se encarregava. Bernardino António Gomes e que servia para divulgar o movimento médico no estrangeiro e publicar memórias. Nesse ano, restaurou-se a Sociedade das Sciencias Médicas de Lisboa. Como o periódico passou a fazer parte desta, o seu nome mudou para Jornal da Sociedade das Sciencias Médicas de Lisboa. Era um jornal rico em informações sobre epidemiologia, hidrologia, história da medicina, demografia, etc. O autor afirma que se todos os livros de medicina se perdessem e apenas aquele jornal se salvasse, seria o suficiente para reconstruir a história da medicina desde o séc. XIX.
Surge depois o Jornal Médico Cirúrgico e Farmacêutico de Lisboa (1835), redigido por D. Benito Hordas y Valbuena e J. J. Viana de Rezende, contendo artigos destes e de mais alguns médicos. Existe neste periódico um suplementar que contém o plano de organização duma escola veterinária proposto pelo governo (1837). Mais tarde Hordas saiu da redacção por se ausentar de Portugal; Viana de Rezende mandou fazer depois um rosto novo para este jornal de grande utilidade para a história da medicina. A seguir o autor trata de referir os diversos periódicos posteriores a este:
Annais do Conselho de Saúde Público do Reino, Lisboa (1838) – continha topografias médicas;
Annais das Sciencias Médicas (1838) – continha o Quadro Sypnotico de Auscultação Nas Modéstias do Peito;
Jornal dos Facultativos Militares (1843) e O Escholioste Médico Publicado Sob Os Auspácios da Repartição de Saúde do Exército – constituem dos mais importantes elementos do jornalismo médico;
Revista Médica de Lisboa (1844);
Registro Médico do Dr. Lima Leitão – continha observações do próprio;
Jornal de Medicina e Sciencias Acessórios;
Ambulância Médica (1862);
Revista Médica Portuguesa (1864);
O Correio Médico de Lisboa (1872) – considerado o percursor da Medicina Contemporânea;
Gazeta dos Hospitais Militares (1877).
Segundo o autor, no princípio de 1849 foram publicados o Zacuto Lusitano e O Esculápio. Relativamente à oftalmologia, saiu o Periódico de Oftalmologia Prática (1878) de Van Der Laan e Francisco Lourenço da Fonseca. Por sua vez, na Homeopatia surgiu a Gazeta Homeopathica Lisbonense (1859), por Bernardino Egídio da Silveira. Mais periódicos relativos a essa vertente são por exemplo: Periódico dos Homeopatas (1874); e Boletim do Consultório Especial de Homoepathica (1880).
Augusto da Silva Carvalho fala, depois, de outros métodos de tratamento vistos na Revista Philosophica (1853), de João Daniel de Sines, e do Annaes de Medicina Pelo Sistem do Raspail (1865) de D. N. de Lacerda e Dr. Guilherme Centazzi. Segundo ele, foi também publicada no Porto a Gazeta Homoepathica Portuense (1853) pelos Clínicos do Consultório Homoepático. Mais periódicos relacionados:
Gazeta Médica do Hospital Real de Santo António do Porto (1859);
Gazeta Médica do Porto (1860);
Archivos de História da Medicina Portuguesa (1876) – estes constituem uma colecção de memórias e informações;
Revista de Medicina Dosimétrica (1880);
A Sociedade dos Estudos Médicos de Coimbra, publicou Estudos Médicos (1878) – foi o primeiro periódico português a publicar resumos de artigos em francês;
Coimbra Médica (1881) – foram inseridos artigos de médicos estrangeiros; é um periódico indispensável para a história contemporânea da Medicina Portuguesa.
Os principais periódicos com artigos literários, artísticos ou relativos a outras ciências são a Gazeta Literária (1761) por Francisco Bernardo Lima, O Jornal Enciclopédico Dedicado À Rainha N. Senhora (1779 – 1792). Jornais relacionados:
Investigador Portuguez em Inglaterra (1811) – contém críticas de escritos de diversos médicos, além de documentos e informações sobre demografia, assistência e topografias médicas.
Jornal de Coimbra (1812 – 1829) – contém artigos originais de clínicos ao Conselho de Saúde Pública.
Annaes das Sciencias e das Artes (1827).
Reportório Literário da Sociedade das Sciencias Médicas e de Literatura do Porto (1834) – este periódico continha observações meteorológicas e vários artigos sobre medicina.
Jornal da Sociedade Pharmaceutica Lusitana (1836).
Annaes da Sociedade Literária Portuense (1837).
Revista Estrangeira (1837) e Revista Literária (1838).
Jornal de Pharmacia e Sciencias Acessórias do Porto (1857).
Boletim de Chimica Applicada (1861)
Jornal de Pharmacia e Sciencias Medicas da Índia Portuguesa (1862).
Archivo de Pharmacia e Sciencias Medicas Acessórias (1864).
Jornal de Sciencias Mathematicas, Physicas e Naturales (1868).
Jornal de Pharmacia Chimica e Historia Natural Médica (1872).
Boletim da Sociedade de Geografia (1876).
Boletim da Pharmacia de Porto (1879).
Todos os jornais acima mencionados contêm artigos de medicina; fora estes existiram também várias publicações sobre outros assuntos distintos da medicina, mais ligados à literatura, com a Revista Popular ou O Panorama.
Fugindo um pouco do assunto das revistas e jornais e focando-se mais na medicina em si, o autor refere factos como o de no final do séc. XIX ainda haver uma deficiência e atraso no que toca à educação nas escolas de medicina em Portugal, mesmo sem conseguir identificar e numerar quais as falhas ou o porquê destas em determinadas cadeiras. Refere também o facto de haver falta de estágios para os novos médicos e o abandono que estes sofriam por parte das escolas após acabarem o curso. Davam-se – muito raramente – protestos via artigos de jornais noticiosos, mas poucos os liam e menos os entendiam e o Governo ignorava-os. Houve várias tentativas para que fossem renovadas e reformuladas as reformas e o tipo de ensino. Mais tarde, um grupo de professores hospitalares juntou-se e empreendeu esta tarefa e juntamente com Miguel Bombarda lançaram A Medicina Contemporânea. O corpo de redacção contava com Manuel Bento, Sousa Martins, Bettencourt Raposo, António Maria de Senna, Daniel de Matos e o Visconde de Sabóia. A revista teve um início brilhante, contendo memórias e artigos de diversos médicos. Esta publicava artigos de temas e assuntos distintos que abrangiam um vasto público, interessando à maioria dos seus leitores; para além disso, Miguel Bombarda produziu protestos e reclamações sobre o ensino, associações médicas, atraso da medicina e todos os assuntos antes mencionados e de interesse geral. Durante quatro anos, a revista viu-se envolvida em “lutas” por haver falta de respeito e tolerância para com ela; houve durante esse tempo picardias e “discussões” entre diversos médicos e até Bombarda entrou “numa guerra” com o Correio da Manhã por este publicar em excesso reportagens de jornais noticiosos e as novidades sobre a resposta da Escola Médica de Lisboa acerca de um convite feito à de Espanha. A Medicina Contemporânea alcançou o seu objectivo e cumpriu o seu papel, sendo sempre regular quanto à sua publicação.
Em 1887, Augusto da Silva Carvalho foi convidado, juntamente com Alfredo Costa, para dirigir uma revista, na qual Miguel Bombarda e outros médicos colaboravam; um ano mais tarde Alfredo Costa abandonou a revista. O autor continuou com a revista tentado mantê-la regular como sempre foi, escrevendo sobre os mais variados assuntos de importância geral. Mais tarde, conseguiu que a rainha D. Amélia promovesse assistência infantil, sendo que esta o encarregou de fundar e dirigir o Dispensário de Alcântara.
Quando mais tarde foram descobertas inovações sobre a profilaxia da raiva por Pasteur, os “ânimos” exaltaram-se na sociedade. O autor viu-se no meio de discussões com Sousa Martins; os confrontos continuaram após “a poeira assentar”, mesmo com as reportagens e sessões de Augusto da Silva Carvalho.
Em 1889, por deixar de poder continuar a desempenhar o papel de director da fundação, Augusto da Silva Carvalho confessa ter passado o cargo para Francisco Stromp, que por sua vez foi substituído um ano mais tarde por Fragoso Tavares, até 1895, contando durante esse tempo com a colaboração de vários médicos, onde foram publicados muitos relatórios, críticas e artigos sobre epidemiologia.
Em 1898 Bombarda voltou a dirigir o periódico que continha artigos valiosos sobre Sousa Martins – que entretanto falecera – tendo como secretário António de Azevedo. Mais tarde foi chamado para se juntar a Bombarda na direcção Belo de Morais e para a redacção Pinto de Magalhães e Reynaldo dos Santos. Quando em 1910 Bombarda morreu, António de Azevedo ficou na direcção e Alberto MacBride entrou para a redacção.
O autor refere que, informações acerca da revista foram omitidas para que o livro não se alongasse mais; refere apenas que foram publicadas milhares de artigos a partir desta. Termina homenageando António de Azevedo, com textos de vários amigos.
Augusto da Silva Carvalho termina o livro dizendo qual o papel social do médico e como o jornalismo pode participar e ajudar; por fim refere quais os factos e quais as melhorias que deviam ter lugar para um próspero futuro da medicina em Portugal, acabando o seu livro dizendo que “o jornal médico deve ser ao mesmo tempo cátedra, arquivo, tribunal e alta voz, que se faça ouvir bem claramente nas secretarias do Estado e nos senados municipais.”

Autor (nome completo): Marta Alexandra Ferreira Bouça Fernandes Ribeiro
E-mail: tuyucapoeira@gmail.com


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Jornalismo UFP,
27/05/2010, 20:13