Vasconcelos, J. (1917)

VASCONCELOS, José Leite (1914). Severim de Faria. Notas Biográfico-Literárias. Separata do Boletim da Segunda Classe da Academia das Ciências de Lisboa, vol. VIII.

Autor: Vasconcelos, J. Leite de
Ano de elaboração (caso não coincida com ano de publicação)
Ano de publicação/impressão: 1914
Título completo da obra: Severim de Faria, Notas Biográficas – Literárias
Tema principal: História da Jornalismo/Jornalistas e Vida Profissional
Local de edição: Coimbra
Editora (ou tipografia, caso não exista editora): Imprensa da Universidade de Coimbra
Número de páginas: 36

Cota na Biblioteca Nacional e eventualmente noutras bibliotecas públicas
Biblioteca: Biblioteca Pública Municipal do Porto
Cotas: S5 – 7 – 93(2)


Esboço biográfico sobre o autor ou autores (nascimento, morte, profissão, etc.)

Etnólogo e filósofo, José Leite de Vasconcelos nasceu em Ucanha, Tarouca (07/07/1858) e morreu em Lisboa (17/01/1941). Formou-se, no Porto, em Ciências Naturais (1881) e em Medicina (1886). De 1887 a 1911 foi conservador da Biblioteca Nacional. Doutorou-se em Filologia Românica na Universidade de Paris (1901). De 1911 a 1929, leccionou na Faculdade de Letras de Lisboa. Empenhado em escrever a história do povo português, fundou a revista Lusitana (1889), o Arqueólogo Português (1895) e o Museu Etnológico de Belém (1893). Publicou mais de três centenas de estudos relacionados com as antiguidades, a linguagem e a vida do povo português, sendo uma autoridade de Renome mundial na matéria. Escreveu: “O Dialecto Mirandês” (1882); “Religiões da Lusitânia” (1897 – 1913), em três volumes; “Estudos de Filologia Mirandesa” (1900 – 1901), em dois volumes; “Opúsculos” (1928 – 1929) em quatro volumes; “Etnologia Portuguesa” (1933); “Romanceiro Português” e “Contos Populares e Lendas”, publicados depois da sua morte.


Índice da obra

Introdução – p. 5
I.Manuscrito de Severim de Faria
Palavras prévias – p. 6
a) Códices de Biblioteca Nacional de Lisboa – p. 7
b) Outros Códices – p. 20

II.Severim poeta – pp. 20 – 23
III.Família de Severim – pp. 24 – 26
IV.Resenha cronológica da vida de Severim – pp. 27 – 31
V.Considerações várias – pp. 32 – 36


Resumo da obra (linhas mestras)

Esta obra tenta biografar Manuel Severim de Faria, autor das “Relações” publicadas em 1626 e 1628 (a primeira das quais foi reeditada em 1627), e que alguns autores consideram ser o primeiro jornal português, embora não periódico.

J. Leite de Vasconcelos diz que encontrou na Biblioteca Nacional, em Lisboa, o códice 224, onde estão arquivadas as relações manuscritas que constituem a “Relação do que sucedeu em Portugal e mais províncias do Ocidente do ano de 1610 até 28 de Fevereiro de 1611”, das quais se extraíram as referidas relações impressas.

O autor refere também outros textos de Severim de Faria, de carácter político, eclesiástico e literário a respeito de Portugal e de outros países da Europa e do Norte de África. No que concerne a Portugal, segundo o autor as noticias das relações dão conta de quem governava o país, as leis publicadas, a morte e nomeação de bispos, de abades de convento e titulares, livros publicados, a visita de Filipe II e a sua morte no dia 31 de Março de 1621, festas religiosas e profanas, falecimento de pessoas notáveis e outras das colónias e ilhas adjacentes.

As notícias dos outros países são mais breves. Há também informações sobre acontecimentos, meteorologia, de prodígios e monstros.

A Família de Severim de Faria.
Este é um quadro genealógico de um dos ramos da família.

Resumo Cronológico da vida e obra de Severim:

1583 – Nasce em Lisboa Manuel Severim de Faria.
1598 – Com 15 anos apenas, já escreve versos.
1599 – Continua a escrever versos.
1604 – A viagem que fez com o Tio Baltasar de Faria a Guadalupe (Espanha) em peregrinação religiosa, dá-lhe assunto para escrever a “Memória de Chelas” e uma carta a Pedro de Mendanha.
1608 – Seu tio Baltasar de Faria renuncia nele o cargo de cónego de Évora.
1609 – O mesmo tio Baltasar renuncia nele também a função de chantre. Severim escreve o Itinerário de Miranda. Saem na 2ª parte da Monarchia Lusytana de Brito dois epigramas latinos de sua autoria.
1610 – 1611 – É a estes anos que se refere a primeira Relação manuscrita.
1615 – Severim oferece ao duque D. Teodósio II a Árvore Genealógica da Casa de Bragança.
1618 – Carta escrita de Macau pelo Padre M. Dias Júnior. Severim ordena o Índice do livro 4º dos originais do arquivo do Cabido Eborense.
1619 – Outra carta de Macau, que se encontra na caixa 29 dos manuscritos da Biblioteca Nacional.
1621- Carta datada de Angola a Severim, do missionário Mateus Cardoso.
1621-1626 – Vários tratados e apontamentos manuscritos no cod. 917 da Biblioteca Nacional.
1622 – Obrigação dos Reis de Portugal sobre a convenção dos povos da Guiné.
Instruções a seu sobrinho D. Francisco Manuel, que partia para a Índia.
1624 – Publicação, em Lisboa, dos Discursos vários políticos.
1625 – Jornada a Maçans da D. Maria. Morreu seu tio, Baltasar de Faria, que tomara o nome de D. Basílio, por ter passado para Cartuxo de Évora. Severim coordena a Noticia de Portugal e suas Conquistas, donde depois extrai a obra “Noticias de Portugal”
1626 – É publicado, em Lisboa, a sua “Relação Universal”
1627 – Publicação, em Braga, de outra Relação.
1628 – Nova edição, em Évora, de segunda Relação.
1631 – 1635 – Cartas de Jorge Cardoso a Severim.
1633 – Carta de Frei António Brandão a Severim. Severim renuncia ao cargo de Cónego em seu sobrinho Manuel de Faria.
1634 – Severim é nomeado pelo cabido de Évora para ir cumprimentar D. Margarida de Aústria que passa de Évora para Lisboa, a fim de governar o Reino.
1638 – “Razões contra a União que se pretendia de Portugal a Castela.
1639 – Severim escreve a “Vida do Padre Gaspar de Macedo”
1641 – Ultima data a que se rewferemas Relações Manuscritas.
1642 – Escreve o index do Cartorio do Cabido de Évora. Renuncia o chantrado no sobrinho.
1643 – Observações sobre os males. Escreve a “ Relação da Vida Solitária da Serra de Ossa.
1649 – Severim publica em Lisboa o “Exercício de Perfeição”
1651 – Publica o “Prontuário Espiritual” (em Lisboa).
1652 – Lança, em Évora, nos alicerces do baluarte que se erigiu com o nome de Teodósio, em honra do príncipe com esse nome, uma pedra com o nome de Severim de Faria.
1655 – São publicadas, em Lisboa, as “Noticias de Portugal”. Morre, em Évora, Manuel Severim de Faria.

Todas estas obras se encontram na Biblioteca Nacional

J. Leite de Vasconcelos encerra com um capítulo intitulado «Considerações Várias», no qual afirma que Severim de Faria viveu numa época em que Portugal, perdida a sua independência com a morte de S. Sebastião, sofria o jugo castelhano, com todas as consequências negativas que daí advieram: assassinatos, perseguições, perda de colónias, ruína do comércio, vexames sofridos por todas as classes sociais. No entanto, teve a felicidade de poder ver a hora da Restauração da independência do país.

Embora não tenha tomado parte directa em todos estes acontecimentos, Severim fê-lo de forma indirecta, já que eles lhe serviram para escrever obras a seu respeito.

Cedo o levaram de Lisboa para Évora, onde estudava o seu tio Baltasar que o educou de acordo com preceitos religiosos rígidos. A paz trazida a si pela religião acabou por ser útil porque Severim terminou os graus de Filosofia e Teologia em Évora.

Inicialmente cultivou a Poesia. Depois tentou outros campos a História, a Geografia, a Sociologia, as Antiguidades. De permeio fazia viagens.

A posição relevante que usufruía na alta sociedade eborense, facilitava-lhe amizades com padres que iam pregar para o ultramar, a quem pedia informações sobre terras longínquas, como Frei António Brandão, que lhe enviava cartas.

Sabendo Severim que um investigador precisava de ter acesso livros e documentos, imaginou formar uma livraria e um museu, e se bem pensou, melhor o fez. Para tal teve a colaboração de missionários, que lhe enviavam curiosidades ou raridades etnográficas, de Jorge Cardoso, que lhe mandava as últimas publicações de Lisboa e de pessoas de Évora e arredores, que lhe traziam toda a espécie de antiqualhas.

Dois aspectos caracterizavam-no: grande e instintiva curiosidade histórica que o levava a investigar sobre todos os assuntos e uma fé muito profunda que o levava a praticar a caridade para com os pobres e se lhe transmitia nos julgamentos que fazia dos homens e das coisas. Foi um homem comedido e ponderado, que teve um papel preponderante na sociedade do seu tempo.

Moderado na vida, foi-o também no estilo que adoptou. No século XVII, em plena euforia dos enfeites e arrebiques do Barroco, Severim cultivou a simplicidade da linguagem. Para isso contribuiu a sua vida de investigador, de estúdio, permanentemente imerso em documentos históricos, arquivos, papéis, que não lhe deixavam tempo para floreados de escrita.


Autor (nome completo): Daniel Roberto Bastos Dias
E-mail: magininha@hotmail.com

Ċ
Jornalismo UFP,
13/06/2010, 17:00