Lacerda, A. (1904)

LACERDA, Augusto (1904). A Irradiação do Pensamento (nas Bodas de Oiro do Comércio do Porto).

Auto: LACERDA, Augusto de
Ano de elaboração (caso não coincida com ano de publicação)
Ano de publicação/impressão: 1904
Título completo da obra: A Irradiação do Pensamento nas Bodas de Ouro do Comércio do Porto
Tema PRINCIPAL: Teoria do Jornalismo
Local de edição: Porto
Editora (ou tipografia, caso não exista editora): Oficinas do Comércio do Porto
Número de páginas: 84

Cota na Biblioteca Nacional e noutras bibliotecas públicas
Cota na Biblioteca Nacional: TR-2148//13V
Cota na Biblioteca Pública Municipal do Porto: Q1-9-46


Índice da obra

Preâmbulo………………………………IX

Atravez do Passado

I. A infância da limguagem escripta.- Os monumentos megalithicos.- Allegoria e geroglypho.- Invenção das letras.- A xylographia.- Papyrus, pergaminho, papel……… 3

II. Origem da imprensa.-Tradições escriptas.-Histriographos babylonos e gregos.-As Acta diurna e as Hebdomadae.-Chronicas e Dietarios.-Pasquim e Marforio…… 9

III. Jornaes medievaes manuscritos.-Nascimento da Imprensa.-Resurge e xylographia com diversa applicação.-Inutilidade prática da illuminura.-Primeiros productos da Imprensa.-Primeira estampa em gravura.-Gutemberg, Schoeffer, Pfister, Coster………………. 15

IV. Expansão do Jornalismo.- Gazetta.-A introducção da Imprensa em Portugal.- Primeiras edições; primeiros jornaes.- As relações dos cegos - A alma popular e a expansão jornalística.- Em França e em Portugal.- Os decanos do Jornalismo Portuguez…………………..21

V. Factores importantes na expansão do Jornalismo Portuguez.- Medidas legislativas: o Correio, os Caminhos de Ferro, o Telegrapho………………..29

A Imprensa de Hoje

I. Pretendidos defeitos do jornal moderno - Theoria darwiniana extensiva ao Jornalismo.- As revoluções, os grandes homens e a critica histórica.- O jornal, producto do meio.- A politica, o éclamo e a fébre de informação.- Interesse e desinteresse pela politica……………………35

II. O reclamo.-D’onde veio e o que é.-Porque se desenvolveu.-Difficuldades de evital-o…………………..45

III. A febre de informação.-o repórter como exigenciada expansão dos grandes centros.-Gratuita affirmação de que Portugal é um paiz retrogado.-Desequilibrio manifesto no seu desenvolvimento.-reporter e informador…………………..49

IV. Imprensa: livro e jornal.-O livro, o pão e o espírito.-Acuriosidade do Homem.-O jornal e a educação do povo.-Romance popular: folhetim e caderneta.-Sua benéfica influencia.-A gravura illustrativa, auxilliar da repotagem.-Servços que presta……………….57

V. O jornal e o desenvolvimento das varias manifestações da actividade humana.-O anununcio e seus grandes benefícios.-A concorrência.-O pequeno annuncio e a sua importância…………………65

VI. As modernas machinas de impresão.-Grandes tiragens.-O desenho como arte industrial.-O trabalho de uma machina de grande tiragem…………………..69

VII: aspectos do Jornalismo Portuguez.-O jornalista da capital do reino, oda capital do norte, e o das províncias.-Influencia do meio na feição características dos jornaes.-Correspondentes brazileiros……………………73

VIII. Liberdade de Imprensa e paixões partdárias.-O Jornalismo e a consciência Humana.-A mentira jornalística.-Opinião Publica.-A Verdade.-Conclusão…………79


Resumo da obra (linhas mestras)

A obra aqui resumida foi realizada para o concurso do Comércio do Porto de “memórias ou comunicações sobre os serviços que a imprensa presta em geral, e em especial sobre os que prestou em Portugal”. O autor divide o trabalho em duas partes. Uma primeira que tenta resumir a história da palavra escrita e o seu relacionamento com a Imprensa, bem como os aperfeiçoamentos desta, e uma segunda parte que se ocupa da observação da Imprensa moderna (ou seja, para o caso, da imprensa do início do século XX). O título da obra evidencia aquela que Augusto de Lacerda, o autor, considera a maior vantagem da imprensa: A Irradiação do Pensamento.

A primeira parte, “Através do Passado”, fala da tendência do homem em exprimir o seu pensamento por escrito na infância da linguagem escrita, recordando os monumentos megalíticos, os hieróglifos, a invenção do alfabeto, a xilografia, o papiro, o pergaminho e o papel.

O autor relembra, também, os escritos historiográficos de babilónios e gregos, as Efemérides gregas, instituídas por Alexandre o Grande, e ainda o discurso de Demóstenes contra Filipe da Macedónia, amplamente copiado e distribuído na Grécia Antiga. Conclui Augusto de Lacerda, assim, que na “infância do jornalismo” estiveram “três aspectos capitais: histórico, noticioso e político” (p. 11). Pode pois dizer-se que, segundo a visão do autor, na génese do jornalismo se encontra a historiografia, a necessidade de transmitir notícias à distância e ainda a política. Recorde-se, a propósito, sobre este último aspecto, que no início do século XX muitos jornais eram políticos, pelo que o texto de Augusto de Lacerda reflecte o contexto da época.

Augusto de Lacerda detém-se, em particular, sobre as Actas Diurnas romanas, salientando que historiadores como Du Cange, Beckmann e Victor Le Clerc “fazem datar das Acta Diurna a existência do jornalismo”, devido à função noticiosa e pública que elas tinham. As Hebdomadae de Varrão também são relembradas por Lacerda como uma espécie de protótipo de revista ilustrada.

Seguidamente, o autor passa em revista os fenómenos medievais que contribuíram para a génese do jornalismo, como sejam as crónicas, os registos historiográficos diários dos frades dietários e ainda Pasquim e Marfório, considerados pelo autor precursores do jornalismo satírico. O autor conta que Pasquim era um sapateiro conhecido pelas suas tiradas humorísticas, mas “a sua popularidade generalizou o nome aos que usavam e abusavam da graça pesada” (p. 13). E continua: “No pedestal de uma estátua, Pasquim afixava pequenos carteis com perguntas maliciosas; as respostas, ainda mais maliciosas, apareciam no pedestal de outra estátua baptizada com o nome de Marfório” (pp. 13-14).

As folhas volantes renascentistas e os panfletos são igualmente considerados pelo autor como fenómenos jornalísticos, até porque o aparecimento da tipografia de Gutenberg potenciou a sua afirmação. Seguidamente, e seguindo o percurso histórico do jornalismo, o autor relembra as gazetas e mercúrios do século XVII, primeiros jornais. Refere, em particular, mas nem sempre com rigor, alguns dos periódicos mais conhecidos dessa época, como a Gazette de Renaudot. Relembra que Manuel Severim de Faria publicou as suas Relações, “primeira folha de feição jornalística” portuguesa, mas erra ao dizer que eram mensais (na realidade, só foram impressos dois números e uma reedição do primeiro número, intervalados por cerca de um ano cada um).

Recorda, também, a Gazeta “da Restauração”, que se iniciou em 1641 e que foi o primeiro periódico português. Diz ainda que após a Gazeta surgiram em Portugal “mais ou menos regularmente várias folhas impressas, umas com feição jornalística, outras que tinham por fim tornar conhecidos certos e determinados factos isoladamente (…) e que à falta de melhores documentos são muitas vezes valiosos auxiliares históricos.” (pp. 24-25) Fala, depois, dos periódicos portugueses setecentistas e ainda dos jornais que surgiram em Portugal graças à Revolução Liberal de 1820. Recorda, também, que antes da independência surgiram no Brasil vários jornais políticos nos quais predominava o ideal separatista.

O autor considera que as convulsões políticas foram “a legítima e poderosa força que daria decisivo impulso ao jornalismo” (p. 25) devido ao aguçar das necessidades informativas da população em situações de crise. Destaca, nesse âmbito, a Revolução Francesa e os conflitos entre absolutistas e liberais em Portugal, mas, reflectindo a francofilia da época, nada diz, por exemplo, sobre a evolução da imprensa inglesa, bastante mais relevante para a emergência do modelo Ocidental de jornalismo.

No capítulo V, que encerra a primeira parte do livro, o autor diagnostica os factores que propiciaram o desenvolvimento do jornalismo em Portugal. Classicamente, evoca o Correio, que a partir de 18 de Janeiro de 1797 deixou de ser entregue a particulares e passou a ser um serviço público oficial; os caminhos-de-ferro, que potenciaram a circulação de notícias e permitiram uma melhor e mais rápida distribuição de jornais; o telégrafo, que tornou célere a transmissão de notícias; e ainda as medidas legislativas que facultaram a criação de jornais e instituíram e regularam a liberdade de imprensa.

Na segunda parte da obra, intitulada “A Imprensa de Hoje”, o autor procura diagnosticar as virtudes e defeitos do jornalismo moderno (para o caso, o do início do século XX), baseado na observação da realidade.
Augusto de Lacerda procura demonstrar, em primeiro lugar, que alguma da crítica ao jornalismo é exacerbada, pois exigir-se-ia do jornalismo um grau de perfeição que está longe de constituir atributo das actividades humanas e exigir-se-ia dele também que corrigisse os erros sociais que não provoca. Aliás, Lacerda interroga-se sobre “como se pode exigir que a imprensa exerça nas sociedades uma missão de contrariedade à corrente geral, sendo, como é, uma parcela no conjunto das manifestações sociais”? Diga-se que nesta questão, como noutras que também coloca, o autor parece sugerir que o jornalismo é, em cada época, regido pelo respectivo contexto histórico-cultural, uma ideia cara a grande parte das correntes teóricas actuais sobre jornalismo.

O autor reconhece, também, nesta parte da obra, que a competição entre jornais se assemelha à luta pela vida (concorrência vital) que Darwin identificou como mecanismo que baseia a evolução das espécies.

Nesta segunda parte do livro, o autor fala também dos defeitos do jornalismo português da sua época, enunciando três grandes razões para os mesmos: a política, o reclamo (publicidade) e a febre de informação. A política, ao invadir o jornalismo, tê-lo-ia feito “participante nos defeitos” da mesma, sendo notórios a irresponsabilidade e os agravos pessoais, mas também, noutro plano, a censura. Por outro lado, “O interesse do público de hoje está em informar-se do que se passa, para aparentar depois, em frases de chapa, um sistemático desinteresse” (p. 41), observa Lacerda. A publicidade exacerba o “louvor em boa própria” (p. 45) de estabelecimentos, bens e pessoas. A febre de informação potencia a “bisbilhotice” e a divulgação de informação irrelevante, “para satisfazer o espírito do público”. (p. 53) Assim, “O repórter viu-se, portanto, em face destas duas obrigações: encher as colunas do jornal e bisbilhotar” (p. 53). Este diagnóstico evidencia que as discussões sobre sensacionalismo jornalístico não são de agora…

É interessante a forma como Augusto de Lacerda se refere à ascensão do repórter e de outra categoria profissional de então, o informador, nas redacções, inicialmente dominadas pelos “jornalistas de secretária”, ou seja, por aqueles que redigiam os grandes artigos. O repórter, diz o autor, “Começou por ser nas redacções jornalísticas uma criatura à parte: mais do que o revisor, menos do que o jornalista; o que quer que fosse semelhante a uma ave de arribação, que só aparecia se o calor de uma notícia sensacional o chamava para a mesa de trabalho. Da argúcia, precisão nos termos, riqueza de pormenores, colorido no descritivo, e quejandas qualidades requeridas para a sua profissão, nasceu a rivalidade entre os repórteres; e quanto mais a rivalidade aumentava, mais subia de ponto na classe o apuramento daquelas qualidades. Se uma parte do público é adversa a semelhante género de noticiarista (…), a parte máxima, que infelizmente é menos ilustrada, tem pelo pormenor uma verdadeira mania (…). O repórter tornou-se rapidamente uma instituição; e assim passou à categoria de jornalista. Na América e em França, e depois em todas as nações europeias, o interview [entrevista], como fórmula interessante, impressionista e de atraente leitura, deu ao repórter foros especiais em matéria jornalística; e a profissão generalizou-se até a alguns indivíduos de elevada cultura intelectual. No nosso país, o repórter ficou sendo o jornalista das ruas e das antecâmaras, com o seu lugar perfeitamente demarcado no corpo da redacção, gozando da consideração que, em certos jornais, chega a ser superior à de alguns jornalistas de secretária; e como a profissão criou uma categoria distinta, logo exigiu a de alguns auxiliares secundários, que modestamente foram chamados «informadores».” (pp. 53-54)

Na sequência do seu raciocínio, o autor relembra que a aspiração do informador é logicamente tornar-se repórter, pelo que procura “colher o maior número possível de notícias, de boatos, de pormenores, de pequeninos nadas muito fúteis”. Augusto de Lacerda relembra, neste ponto, que a ilustração não apenas tornou o jornal mais atraente a todos os públicos como também aumentou o valor da reportagem.

Apesar dos defeitos do jornalismo, o autor considera que o jornal, barato e transclassista, prestou “um altíssimo serviço” à “irradiação do pensamento” (p. 57), com resultados superiores aos do livro, caro e elitista (estas comparações entre livros e jornais e as discussões sobre se o jornal eliminaria o livro eram recorrentes desde o século XIX e prolongar-se-iam pelas primeiras décadas do século XX). Mesmo “A mania política e a febre de informação (…) deixam de ser (…) um mal, porque se transformam num atractivo que desenvolve nas classes pobres o gosto pela leitura e até o reconhecimento de que ela é hoje uma necessidade imprescindível”, afirma Lacerda. Inclusivamente, o autor salienta que através dos folhetins publicados nos jornais os mais pobres têm acesso à literatura.

No quinto capítulo da segunda parte do livro, o autor procura evidenciar que o jornalismo deu um contributo positivo a “todas as manifestações (…) da inteligência e da actividade humana”, porque “nele se debatem os assuntos que vão servir os interesses dessas manifestações” e se recorre ao anúncio publicitário para promover e divulgar pessoas, bens e serviços (pp. 65-66). A publicidade, aliás, é vista genericamente como benéfica por Lacerda, já que, na sua visão, promove a concorrência e informa o público.

A impressão industrial não passou ao lado do autor, que, no sexto capítulo da segunda parte do livro, faz uma referência aos benefícios que as rotativas emprestaram ao jornalismo.

Outra reflexão que o autor faz é sobre os vários jornalismos existentes em Portugal: o da capital do Reino (Lisboa), o da capital do Norte (Porto) e o das províncias. Lacerda procura caracterizá-los e compará-los, começando pelos protagonistas do processo: os jornalistas.

O autor observa, assim, em primeiro lugar, que o jornalista de Lisboa, no início de Novecentos, se caracterizava por levar uma vida boémia, ter outros empregos e, em vários casos, também por se dedicar à política. Era um “frequentador de tabacarias célebres, de cafés ruidosos, de teatros, de centros onde se discutem os acontecimentos políticos da última hora, onde encontram primeiro eco, ou onde se forjam, os boatos que à noite ou no dia seguinte farão as delícias dos que se comprazem nas notícias de sensação.” (p. 74) Já muitos dos jornalistas portuenses, segundo o autor, viviam exclusivamente do jornalismo, eram pessoas graves e laboriosas, conscientes e metódicas, pelo que se contariam no Porto “mais jornais bem feitos do que em Lisboa” (p. 75), que “conseguem oferecer leitura mais atraente” (p. 76). Finalmente, o jornalista da província, “talentoso e distinto”, era caracterizado pela “sinceridade inata ao homem mais em contacto com o campo (…) e por uma maneira muito sua de apreciar os casos da alta política, evidenciando a influência das discussões nos pequenos centros, onde os ditos casos parecem ser vistos por vidros esfumados” (p. 76). Os jornais de província, porém, procurariam imitar os lisboetas ao trazerem uma secção dedicada à “vida mundana”. “Em algumas terras de província, o jornalista apresenta um aspecto muito simpático (…). É pobríssimo, vive apenas do que independentemente chama a sua profissão, e alguns escrevem, compõem, imprimem e distribuem aos vendedores o jornal que é obra deles e só deles” (p. 77), continua o autor. Nesse mesmo capítulo, o autor não esquece os correspondentes brasileiros, que contribuem para manter as boas relações materiais e intelectuais que unem o “pequeno” Portugal ao “grande” Brasil.

Antes de concluir, o autor defende que “o jornalismo moderno é o mais sólido esteio dos direitos do Homem, a sentinela vigilante da sua liberdade, o propagador dos seus ideais e das suas aspirações” (p. 79), mostrando, nesta passagem, convicções de tom bem contemporâneo do modelo Ocidental de jornalismo e fé na liberdade de imprensa. Mais, para Augusto Lacerda nenhuma outra “instituição” (o jornalismo como instituição social é uma noção que provém do pensamento dos primeiros cientistas sociais alemães, do século XIX) “manifesta com mais justeza (…) o estado intelectual e moral de um povo, num dado momento, nem regista as tendências da humanidade” (p. 80). Além disso, o autor desconfia da omnipotência que alguns atribuem a determinados jornais na condução da opinião pública, relembrando a pluralidade de jornais existentes: “A opinião pública, se por momentos é ofuscada (…), a breve trecho se orienta, não pelo que afirma este ou aquele jornal, mas pelo que (…) conclui das afirmações colectivas do jornalismo”.

Em conclusão, para o autor “Não há interesses sociais, dos mais simples aos mais complexos, que não dependam do jornalismo (…), intenso foco de luz (…) irradiando a jorros (…) o fulgor do pensamento humano” (pp. 83-84).


Nome completo do autor da ficha bibliográfica: José Pedro Andrade Maia Ribas Fontes/Jorge Pedro Sousa
E-mail: zpf@sapo.pt/j.p.sousa@mail.telepac.pt
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Jornalismo UFP,
29/05/2010, 20:19