14.05 Sampaio na Patuleia: O Eco de Santarém

4. Sampaio e a imprensa clandestina da Patuleia

Com o eclodir da Patuleia, Sampaio manteve-se na clandestinidade. Chegou a disfarçar-se de mulher para escapar à polícia. Permaneceu, primeiro, na já referida casa do padre Carvalho e, depois, na do administrador do distrito de Santarém, que o acolheu por amizade. Seguidamente, refugiou-se perigosamente em Lisboa (SÁ, 1984, p. 42), para lançar dois novos e sucessivos periódicos clandestinos – O Eco de Santarém (Santarém estava ocupada pelos rebeldes da Patuleia[1]) e O Espectro – nos quais fez uso dos seus recursos retóricos para apelar à mobilização dos cidadãos para lutarem ao lado das forças rebeldes. Ao fazê-lo, contribuiu para politizar a Patuleia, enquadrando-a como luta política e partidária.

A tumultuosa história desses periódicos revela a visão empreendedora e aventureira de Sampaio, mas também a sua coragem. Apesar de profundamente engajado na luta política, o jornalista exibiu, neles, a sua verticalidade ideológica, que só seria manchada após a Regeneração.

 

 

4.1 Sampaio e o Eco de Santarém

Conforme se pode ver na tabela 1, d’O Eco de Santarém terão saído apenas quatro números[2], entre 8 e 14 de Dezembro de 1846, redigidos quase integralmente por António Rodrigues Sampaio e impressos, furtivamente, em Lisboa, por José Elias da Costa Sanches, impressor dos cartazes do Teatro São Carlos, nas ruínas da igreja de Santa Catarina (PRAÇA, 1979, p. 46, nota 7). Na colecção do Eco disponível na Biblioteca Nacional de Portugal[3], há, ainda, um suplemento ao jornal, no qual se insere uma carta expedida pelo Conde de Bonfim, de Torres Vedras, datada de 22 de Dezembro de 1846. Este suplemento é um pouco estranho, porque o Espectro começou a publicar-se a 16 de Dezembro, pelo que o referido suplemento deveria ter saído como suplemento ao Espectro e não ao Eco.

 

Tabela 1

Datas de publicação d’O Eco de Santarém

Data

Dia da semana

Periodicidade na semana

8 de Dezembro de 1846 (n.º 1)

Terça-feira

Trissemanário

10 de Dezembro de 1846 (n.º 2)

Quinta-feira

Trissemanário

11 de Dezembro de 1846 (n.º 3)

Sexta-feira

Trissemanário

14 de Dezembro de 1846 (n.º 4)

Segunda-feira

Semanário

22 ou 23 de Dezembro de 1846 (?)

Suplemento com carta de Torres Vedras expedida a 22 de Dezembro.

 

 

No dia 15 de Dezembro, a polícia, informada por denúncia, assaltou o local onde se imprimia O Eco. Os agentes ainda fizeram uma busca, mas não encontraram vestígios da impressão do jornal, já que os moldes tinham sido destruídos e uma das filhas do referido tipógrafo escondera a cabeça do jornal debaixo da roupa (TENGARRINHA, 1989, p. 166; 2006, p. 145).

Como se apresentava O Eco de Santarém? Os três primeiros números ostentavam o design característico da época vitoriana: formato de quarto (19,5 x 25,6 cm, para uma mancha gráfica de 21,2 x 15,2 cm), cabeçalho encimado pelo número, do lado esquerdo, e pelo ano, do lado direito, a que sucedia o título, central, em maiúsculas, rodeado de espaço em branco, para ter impacto visual. A seguir ao título do jornal, surgia o local e data da publicação (Lisboa, X feira, X de Dezembro), destacados por dois filetes horizontais, um mais carregado do que o outro, como que desafiando as autoridades a encontrarem vestígios de um jornal clandestino impresso na própria capital. Aparecia, depois, o texto, paginado a duas colunas, com letra capitular a abrir o primeiro artigo. Normalmente, apareciam dois artigos, um a seguir ao outro, notícias e, tal como aconteceu no Espectro, espaços para a “Correspondência Interceptada” ao inimigo e para notícias oficiais, mas sem grandes cuidados com o ordenamento e com a hierarquização das matérias. Alguns desses arremedos de secções eram intitulados (“Notícias” ou “Correspondência Interceptada”, por exemplo), mas de forma despadronizada (tanto podia ser em itálico, como em maiúsculas, como em estilo normal), como era, aliás, comum nos jornais vitorianos (a mesma situação repete-se, por exemplo, no Revolução e no Espectro).

O único suplemento ao Eco apareceu numa folha de idênticas dimensões às dos três primeiros números do jornal, mas de menor gramagem, paginada de um só lado e com uma mancha gráfica de 14,5 por 15 cm.

O quarto número é diferente. Embora mantendo o mesmo tipo de caracteres e de cabeçalho, aparece numa única folha de maiores dimensões e menor gramagem, talvez devido à urgência e circunstâncias da sua publicação clandestina perante a constante ameaça das autoridades policiais. A folha, paginada de um único lado, a três colunas, tem a dimensão de 40,5 X 24,2 cm, para uma mancha gráfica de 36 X 21,8 cm.

 

 

4.1.1 O discurso do Eco de Santarém

Do que fala o Eco de Santarém? Num clima de guerra civil, o jornal fala, sobretudo, da revolta da Patuleia e da sua conjuntura, nomeadamente nos artigos de fundo, e sempre de forma a rebaixar e denegrir o inimigo e a engrandecer a causa própria, atenuando o impacto dos insucessos dos correligionários:

 

O estandarte popular tremula em todo o País. A opressão tem por seu apenas os palmos de terra que pisa. (…) A resistência foi simultânea no Porto, Coimbra e Algarve. (…) Em Viana do Alentejo derramou-se em batalha campal o primeiro sangue. (…) O Alentejo ficou livre (…). Em Trás-os-Montes, a causa popular foi menos feliz. O povo decidiu-se logo por ela (…), mas traído pelo barão do Casal levantaram mãos (…) contra os seus próprios pais e irmãos – Vagabundos e fugitivos, percorreram esses soldados algumas terras do Minho, que assolaram com as suas violências (…) – fugiram das vistas do Porto e foram encurralar-se em Chaves (…). O que não pôde fazer o valor, fê-lo o ouro (…) e na acção de Valpaços, por uma vergonhosa traição, (…) entregaram-se. Apesar dessa defecção, o barão do Casal abandonou as suas posições e o nobre visconde de Sá retirou para o Porto a fim de reforçar a sua divisão, para não sacrificar tantas vidas.

Este desastre afligiu os liberais, mas não os desanimou. (…) O Porto está hoje um baluarte inexpugnável. (11 de Dezembro de 1846)

 

Metamorfoseando-se em analista militar, António Rodrigues Sampaio não hesita em justificar uma eventual opção patuleia (que não seria inteiramente seguida) por uma guerra de guerrilha, querendo mostrar que essa seria a opção correcta, por muito que os inimigos atribuíssem, com alguma verdade, a alegada invisibilidade dos sucessos rebeldes à inexistência de vitórias expressivas que pudessem chamar suas. O relativo insucesso das forças patuleias é ainda justificado por Sampaio, embora algo falsa e forçadamente (propagandisticamente, portanto), por uma alegada preferência dos rebeldes pela luta ideológica e intelectual em detrimento do confronto militar:

 

Fizemos este boquejo para traçar a situação do País. Teríamos de comemorar a acção de Sintra, onde os populares se cobriram de glória, e outros muitos recontros se tivéssemos de enumerar os nossos feitos de armas. Porém, o nosso intuito é (…) consignar somente as conquistas do progresso intelectual (…).

Prezamos em muito os nossos exércitos, mas a sorte da liberdade não está nos resultados de uma batalha (…), está na conquista das inteligências (…). 

Temos guerrilhas (…). O sistema de guerra por bandos é o que se concilia melhor com as inspirações do patriotismo (…). (11 de Dezembro de 1846)

 

Os acontecimentos da Patuleia também são objecto de notícias. Algumas são longas, comentadas, interpretadas e redigidas num tom arcaico (repare-se, por exemplo, na insistência nos títulos nobiliárquicos e no uso de expressões como ex.mo), mas outras são curtas, pouco mais do que leads com a informação essencial, conforme as regras que Quintiliano fixou para a posteridade nas suas Instituições Retóricas (sujeito, objecto, lugar, tempo, modo e causa), no longínquo século I da nossa era. É de notar ainda, nos diversos tipos de notícias, a tentativa forçada de conotar os rebeldes com a Nação e com todo o Povo português:

 

NOTÍCIAS OFICIAIS

(…) No dia 4 houve vivo fogo de parte a parte entre as forças do coronel Lapa e do ex.mo conde de Vila Real, com grande perda das primeiras e nenhuma das segundas (…). Foi um dia de completo triunfo para as forças nacionais. Eis a resposta que damos ao Diário quando pergunta «onde estão as forças populares?» (8 de Dezembro de 1846)

 

 

Alguns soldados de cavalaria do célebre Ilharco, mandados a Alhos-Vedros buscar rações, foram ali batidos pelo povo. (10 de Dezembro de 1846)

 

Uma força popular entrou em Alenquer, levou algumas armas e dinheiro que ali encontrou e fez prisioneiro o administrador Gambôa e Liz, fornecedor do Saldanha. (10 de Dezembro de 1846)

 

De facto, apesar de ser um jornal doutrinário e panfletário, destinado a encorajar e entusiasmar os rebeldes da Patuleia, o Eco também oferecia um vasto número de informações, quer inseridas nos artigos (a inexistência de uma “ideologia da objectividade” propiciava a intromissão dos comentários nos factos), quer mesmo como notícias autónomas (o que mostrava que, apesar de tudo, se distinguiam os factos dos comentários, até porque os últimos tendiam a alicerçar-se nos primeiros). No entanto, essas informações, nem sempre recentes, são, normalmente, enquadradas, insistindo-se na justiça e razão da causa própria e na injustiça da causa alheia, bem como no alegado apoio popular massivo à causa própria e desapoio à causa contrária. Os próprios insucessos das armas rebeldes são matizados com os relatos dos sucessos. E várias das notícias servem, principalmente, para denegrir e insultar o inimigo. Eis alguns exemplos:

 

Imoralidades

O marechal das caras [Saldanha] recebeu há pouco do duque de Palmela a quantia de 20$000 réis para satisfazer algumas dívidas. Pagou este benefício exigindo o desterro do seu benfeitor. (8 de Dezembro de 1846)

 

Ao ministro Sousa Azevedo emprestou há pouco o duque de Palmela a avultada soma de 23$000 réis para este satisfazer um célebre alcance em que estava para com o Tesouro. (8 de Dezembro de 1846)

 

A resistência foi simultânea no Porto, Coimbra e Algarve. (…) Em Viana do Alentejo derramou-se em batalha campal o primeiro sangue. (…) O Alentejo ficou livre (…). Em Trás-os-Montes, a causa popular foi menos feliz. O povo decidiu-se logo por ela (…), mas traído pelo barão do Casal levantaram mãos (…) contra os seus próprios pais e irmãos (...). (11 de Dezembro de 1846)

 

Destinado, predominantemente, ao público burguês que liderava a causa patuleia, o jornal, ainda que confeccionado para ser lido em público e, assim, animar as hostes próprias, não deixava de ecoar preocupações extensíveis à generalidade da população, como as inquietações de natureza económica (carestia de vida):

 

ESTADO DO MERCADO

Notas a 900 réis e começa a faltar a prata para as trocar. Pão a 40 réis o arrátel. Carne a 35 rs, e todos os géneros de primeira necessidade têm subido extraordinariamente de preço. (14 de Dezembro de 1846)

 

É ainda de salientar o facto de O Eco, tal como, abundantemente, ocorrerá no Espectro, entrar em diálogo com outros jornais, nomeadamente com o principal jornal governamental – o Diário do Governo, para melhor se contrapor aos adversários, denegrindo-os (no exemplo inserto, até se acusa os adversários de serem analfabetos – quanto em causa poderá ter estado somente um erro de composição cometido na tipografia), desmentindo-os ou tentando mudar o spin dos respectivos enquadramentos. Os jornais configuravam-se, efectivamente, como um espaço público, embora imaterial e simbólico, por onde passavam muitas das discussões (principalmente políticas) travadas no contexto da época. Porém, arcaicamente, as matérias, por vezes, remetem o leitor para conhecimentos contextuais que até lhe poderiam escapar:

 

O Diário de 12 (sábado) publica uma notícia importante – é que o visconde de Vinhais recebeu um expresso pelo qual soubera que o barão do Casal saíra a 4 do corrente de Vila Real para Amarante (…) para marcharem sobre o Porto. O expresso também dizia que a Junta do Porto fizera propostas ao barão do Casal, que este rejeitara (…), respondendo bocalmente (é assim que escreve o literato, que talvez quisesse dizer boçalmente) que nada tinha a tratar com a Junta facciosa.

(…)

A proposta da Junta do Porto é falsa – A Junta propõe ao Casal uma entrega absoluta e um conselho de guerra. A Junta não transige nem com um apóstata, nem com um assassino.

(…)

O Diário, tendo notícias tão recentes, diz nada de Valença. Pois o comissário régio não escreveu pelo iate (…) que chegou de Vigo em dois dias? (14 de Dezembro de 1846)

 

A contraposição aos adversários, numa tentativa de impor “uma verdade”, foi, de resto, constante no Eco, tal como seria no Espectro. Para isso, António Rodrigues Sampaio desmente o inimigo (não necessariamente os seus jornais, mas o inimigo no seu conjunto) e apelida-o de mentiroso, dizendo até que lhe faltava a paciência para aturar tantas mentiras. No exemplo escolhido, para corroboração da sua “verdade”, Sampaio não hesita em lançar, ironicamente, a mão a um facto que quase se esquecia de relatar – diz ele – para obter um efeito de sentença final:

 

Cartaxo 6 de Dezembro

Já não há paciência para sofrer tanto vexame (…). Tem desertado muita gente daqui para Santarém, apesar de espalharem (…) que no quartel de Belém estão ingleses, e que o duque da Terceira está à testa de seis mil homens no Porto, etc. etc. Em patranhas ninguém os excede, até fizeram correr que o Bonfim vinha sitiar Santarém pelo lado oposto!

Dizem aos soldados que o Governo fizera em Inglaterra um empréstimo de 400 contos em metal, e que a Rainha empenhara as jóias da Coroa em Londres para dar mensalmente para as despesas da guerra 30 contos!

Que no Seixal, Alcochete, Moita há três batalhões em força de 1200 baionetas, e que por toda a parte há grande entusiasmo em seu favor. Eis aqui as patranhas que espalham, e com que tentam embalar os soldados. Esquecia-me de dizer que fugiram 22 soldados de cavalaria para o conde do Bonfim. (14 de Dezembro de 1846)

 

Um tema incómodo no Eco, e que de resto também serviria de mote ao Espectro, foi o da influência miguelista, pró-absolutista, no contexto da Patuleia. O ponto de vista assumido pelo Eco é a de que existiria uma aliança camuflada e insidiosa entre cabralistas e miguelistas que levaria estes a atacar os rebeldes patuleias. Essa proposta de geração de sentido permite ao Eco denegrir o inimigo cabralista, quer perante os patuleias, quer mesmo perante as potências liberais europeias. Mas mais tarde, no Espectro, conforme se verá, o enquadramento teve de evoluir para a justificação da aliança conjuntural e contranatura entre miguelistas e patuleias que efectivamente veio a firmar-se, ainda que não oficialmente, no contexto da confusa conjuntura da época.

 

McDonell [chefe dos rebeldes miguelistas] foi chamado entre nós pelos cabralistas (…) e ousou atacar as forças do visconde de Sá na sua marcha para o Porto. O resultado desta ousadia foi deixar no campo (…) 17 mortos, muitos prisioneiros, e escapar ele mesmo por uma precipitada fuga para ir contar ao seu cúmplice Casal a notícia da sua derrota.

A cumplicidade Saldanha-cabralista com McDonell está provada e reconhecida. Os bandos miguelistas ocupam Braga, Guimarães e Penafiel (…). E que faz o Governo de Lisboa e seu termo? (…) Mofam (…), folgam com o triunfo dos miguelistas e pedem dinheiro ao comissário régio de Vigo como preço da traição de Valpaços. (…) Vejam como o Diário de 2 do corrente exulta com a aparição de McDonell: “Partiu então (do Porto) o coronel Couceiro. Porém, chegado a Penafiel, uma guerrilha miguelista, comandada por McDonell, prendeu-o, e sendo inúteis os esforços do chefe rebelde para convertê-lo à fé de D. Miguel, ele pôde voltar sem os seus despachos.”

Atentai agora no Diário de 4 e verás a solene promessa, a declaração categórica de que o ministério “não voltará as armas contra miguelistas” e por fim conclui a (…) tarefa notando na (…) folha de 7 estas palavras: “Os do Porto são escarnecidos e motejados pela guerrilha dos miguelistas, que (…) já os desarmam e descalçam (…).” Que estes motejos nos viessem do Saraiva de Londres, não nos admirávamos, mas que no-los dirigisse a folha oficial do Governo da Rainha, é o que nunca esperávamos! (11 de Dezembro de 1846)

 

Visto tudo isso, o que queria, afinal, Sampaio do Eco de Santarém? O que prometia no jornal? Semelhantemente ao que sucederia num estatuto editorial contemporâneo, António Rodrigues Sampaio elenca, num artigo publicado no primeiro número do novo periódico (8 de Dezembro de 1846), o programa do Eco. Escreveu que seria uma “voz da verdade” que não daria aos adversários “o prazer do silêncio” e que, portanto, rompendo “o silêncio dos sepulcros” iria “perturbar os festins” dos cabralistas, “esses banquetes de ouro e sangue em que se devoram as cartilagens da Pátria”. Revela, ainda, ser sua intenção expor “as falsidades (...), as verdades que se ocultam, os factos que se invertem, as reputações que se caluniam, os dinheiros que se roubam, os rendimentos que se dissipam”. Indicia, ainda, as condições difíceis em que o jornal seria publicado, ao mesmo tempo que sustenta a ilegitimidade do Governo, nomeado pela Rainha sem eleições: “Temos necessidade de ser breves. Faremos em artigos repetidos a autópsia disso a que em Lisboa se chama Governo e mostraremos a ignorância e a má-fé que se observa em todas as suas providências”. Promete, finalmente, convicto da razão e do apoio divino, que “A luta não será longa. (…) E Deus há-de ser connosco!”

O que se observa nos excertos de texto atrás citados é, então, a crença de Sampaio no poder escrutinador e mobilizador do jornalismo, em prol da narração de uma causa e de uma “verdade”. Mas observa-se, também, a adesão a uma retórica romântica, transclassista, coloquial, directa e simples, mas também viva e apaixonada, destinada ao iletrado e ao erudito, pois apela mais às emoções partilhadas e à exaltação dos sentimentos do que à reflexão racional e serena. Está em causa o convencimento pela comoção, que anteriormente aqui se referiu. Não podia, aliás, ser de outra maneira, já que O Eco surge não para discutir com seriedade e profundidade os problemas do país mas sim para animar as hostes patuleias, num estilo ritmado por frases curtas, fortes e persuasivas, metafóricas, balanceadas entre ideias contrastantes (silêncio/festim; falsidade/verdade...). Era, portanto, um estilo que tanto se apropriava a uma leitura silenciosa como a uma leitura em voz alta, para assembleias (opção realista, tendo-se em conta o enorme analfabetismo que grassava na época).

Um outro pormenor, de resto antecipador do tom romântico que Sampaio dará ao Espectro, pode destacar-se n’O Eco. É o recurso a uma linguagem figurativa, frequentemente metafórica, oportunamente irónica, em que se interpela o leitor e em que se confrontam conceitos, como o belo e o horrível, a voz e o silêncio, a liberdade e a prisão ou escravidão, e em que se remete reiteradamente o discurso para o tenebroso: os sepulcros, o sangue, a antropofagia dos que “devoram as cartilagens da pátria”. Pode pois dizer-se que, tendo encontrado a “sua” fórmula retórica, Sampaio a repetirá exaustivamente, muitas vezes em diálogo com os jornais governamentais, já que a imprensa era o espaço (ainda que imaterial e simbólico) mais relevante de discussão pública das causas da época:

 

O Diário não cessa de nos dizer que todos correm em alistar-se voluntariamente, mas apesar desse entusiasmo, Lisboa tornou-se uma verdadeira tapada real: é uma montaria por essas ruas que é difícil escapar aos galgos da polícia. Todos correm (…) a alistar-se, mas por medida preventiva, os voluntários vão todos amarrados (…). Nunca se viu um entusiasmo igual, e para que não arrefeça de todo vão enchendo as prisões de vítimas. (...)

Acaso abandonariam o Reino (…) os duques de Palmela, marqueses de Minas, Valada e Nisa (…) e outros? Decerto que não. Estes distintos cavalheiros abandonaram o seu país para escaparem aos furores do despotismo de Belém. As prisões estão cheias de homens honrados e grande número de cidadãos beneméritos acham-se hominizados. (8 de Dezembro de 1846)

 

Os enquadramentos discursivos do Eco, repetidos no Espectro, são invariáveis. Vejam-se alguns exemplos:

 

1) Cabralistas e saldanhistas, com a conivência da Rainha, colocaram o país a saque, importando, por isso, que os portugueses nobres e generosos os combatam:

 

Honra, virtude, moral, tudo está perdido, tudo se sacrificou ao demónio da ambição que se apossou do poder. (8 Dezembro 1846)

 

Temos de combater com a corrupção. Não importa! Uma nação inteira não se corrompe! (8 de Dezembro de 1846)

 

Temos orgulho de pertencer à oposição – é um partido nobre, generoso, cheio de vida e que tem lutado contra o exército, a camarilha e a agiotagem (…). (10 de Dezembro de 1846)

 

2) Ao suspender as garantias dadas aos cidadãos pela Carta Constitucional, a Rainha cometeu um acto ilegítimo e absolutista, rompeu o contrato implícito de confiança entre ela e os cidadãos, justificando a revolta dos súbditos:

 

A Constituição está suspensa. Não há direito mais do que o da força. A legitimidade está na resistência. O poder rasgou o pacto social e desligou-nos da obediência. Em nome da Carta, não manda ele, porque a suspendeu; em nome do absolutismo, não reconhecemos o seu império. (...) O direito dos nossos adversários não é melhor do que o nosso. (8 de Dezembro de 1846)

 

A Constituição, essa tábua da lei, foi suspensa (…), e para nada faltar à orgia dos Bórgias de Belém, até houve quem, para vencer, lembrasse o envenenamento de portugueses! E que outro homem poderia ser escolhido para uma tal atrocidade que não fosse o marechal Saldanha! E falam-nos nos atentados de D. Miguel. (8 de Dezembro de 1846)

 

3) A violência da revolta é justificada porque cartistas, cabralistas e saldanhistas, com a conivência da Rainha, exerceram previamente a violência sobre os constitucionalistas:

 

O canhão soa – também temos canhão. Não nos deixam usar as armas da inteligência, e não poderão fugir aos golpes de espada que nos provocaram. (8 de Dezembro de 1846)

 

4) Numa variação do enquadramento anterior, postula-se que a violência da revolta se justifica porque o Governo se sustenta na violência contra a “nação inteira” para se manter em funções:

 

Um Ministério imposto à força das baionetas é indigno. (…) Um Ministério (…) sustentando-se pelas infâmias que pratica e pelas perseguições, é digno que baqueie (…) coberto com as maldições da nação inteira! (10 de Dezembro de 1846)

 

5) A causa dos revoltosos da Patuleia é legítima e assim o prova a alegadamente massiva adesão do povo e dos espíritos mais iluminados à rebelião, com a bênção dos europeus:

 

Temos por nós o país inteiro, as suas melhores inteligências, a propriedade, toda a dedicação desinteressada e generosa, os nossos exércitos ocupam toda a extensão do nosso território, os cidadãos oferecem voluntariamente as suas vidas no altar da pátria. (…)

A nossa causa é justa, a Europa assim o reconhece. (…) Isto é que faz vacilar o poder, esse poder corrompido que levou o Trono a dois passos do abismo e o País a um cataclismo de onde só pode sair pelos esforços heróicos dos seus filhos. (8 de Dezembro de 1846)

 

6) Ao aliar-se a cabralistas e saldanhistas, a Rainha revelou ingratidão para com os liberais que, liderados por seu pai, D. Pedro IV de Portugal e I do Brasil, lutaram para a colocarem no Trono:

 

Há vinte e seis anos que (…) pelejámos pela liberdade (…). Chegámos a acreditar que iríamos colher o fruto dos nossos sacrifícios. Enganámo-nos. (…) D. Maria derrubou o Trono que lhe conquistámos, lançou por terra o diadema da liberdade, para cingir uma coroa de ferro. (8 de Dezembro de 1846)

 

7) Os cabralistas e saldanhistas buscam, ilegitimamente, uma intervenção estrangeira num assunto nacional e obtiveram a conivência de Espanha:

 

Correspondência Interceptada

Se ainda restasse alguma dúvida da interferência vergonhosa que a Espanha tem tido nos nossos negócios domésticos, o documento que abaixo transcrevemos o demonstrará (…). É do oficial maior da secretaria dos Estrangeiros, e dá bem a conhecer a conivência desleal, a cumplicidade, daqueles que se deviam conservar neutrais nesta contenda.

Cópia n.º 1

Expede esta noite a legação espanhola um expresso seu a Badajoz. Por ele se pode mandar correspondência para Elvas, que para ali será transmitida a Badajoz. (8 de Dezembro de 1846)

 

8) Cabralistas e saldanhistas são insidiosos, pérfidos, desleais, falsos, sempre dispostos a trair, por vezes “estupidamente”, de acordo com as conveniências:

 

E os ministros da situação juntam à indignidade, a inépcia e a estupidez (…). Seja a acusação feita ao duque de Palmela para o obrigar a sair de Portugal. Sentimos não poder transcrever na íntegra esse famoso documento. No entanto, sempre aproveitaremos três dos artigos mais salientes.

Art.º 4.º Que os ditos estrangeiros (…) caminham com frequência da casa do excelentíssimo duque para as do coronel Wilde e ministro inglês cujas opiniões se têm abertamente pronunciado contra o Governo de SM.

Art.º 5º Que as comunicações estabelecidas por meio destes e de outros agentes estrangeiros (…) têm influído disposições desfavoráveis e quase hostis ao Governo de SM (…).

Ao Governo britânico compete tirar o desforro de acusação tão traiçoeira. Nós só acrescentamos que se recordem nossos leitores do estulto Diário a anunciar cheio de júbilo a chegada do almirante inglês Parker, que vinha oferecer a sua esquadra, e hoje a polícia secreta alcunha-o de conspirador! (10 de Dezembro de 1846)

 

Reina de novo a desconfiança nas fileiras dos chamados cartistas. (…) Os insultos à Inglaterra e a petulância com que se conta com uma interferência estrangeira são factos que hão-de ter o castigo condigno!

Não querem ser escravos dos pescadores altivos, mas receberão com meiguice o jugo dos espanhóis e os grilhões da França! (…)

Eis a proclamação.

(…)

Camaradas, (…) estamos atraiçoados pelo partido inglesado, que quer entregar Portugal à Inglaterra. Já o malvado Palmela partiu, mas ainda ficam por cá os (…) outros marotos espias ingleses e comprados por estes. Nesse plano anda com eles esse coronel inglês, o ministro e o almirante, que protegem descaradamente a facção rebelde. Em Santarém, não gira outro dinheiro senão o ouro inglês, e aqui os dois bandalhos F. e C. andam aliciando os nossos soldados. Dêmos cabo de toda essa vil canalha. A Espanha e a França são por nós, e ainda que os rebeldes prometam a Madeira a esses pescadores altivos, mostremos-lhes que ainda somos portugueses livres e ousados, que preferiremos morrer a sermos escravos da Inglaterra. (14 de Dezembro de 1846)

 

Os exemplos anteriores, escritos, também, para “inglês ler”, procuram demonstrar aos britânicos, e não só aos portugueses, a duplicidade dos cabralistas e saldanhistas, que, apesar de alegadamente procurarem o apoio inglês, não se coibiam de redigir proclamações anti-britânicas, mas hispanófilas e francófilas, nem se inibiam de acusar o duque de Palmela, anterior chefe do Governo, de, cumplicemente com os britânicos, promover a denegrição do Governo português.

Que balanço se pode fazer do discurso do Eco de Santarém? José Manuel Tengarrinha (1989, p. 166) avalia o jornal da seguinte forma:

 

Pela violência da linguagem e o extremismo das suas posições, O Eco de Santarém confina já com o republicanismo (...) cuja única parte programática consistente se resume à deposição da Rainha. (...) Embora apresente uma técnica (...) segura e um conteúdo (...) rico (...), tem ainda um alcance bastante modesto. (TENGARRINHA, 1989, p. 166)

 

No entanto, apesar da truculência da linguagem, parece algo excessivo considerar o Eco um jornal pré-republicano, similar, por exemplo, aos primeiros periódicos republicanos portugueses, que surgiriam em 1848 (casos de A Alvorada, É Tarde, O Regenerador, A República, A Fraternidade e O Republicano).

 

 

4.1.2 As fontes do Eco de Santarém

De onde provinham as informações publicadas no Eco de Santarém? Tal como era comum nos jornais da época, e conforme uma tendência que se manifestava desde a génese do jornalismo Europeu no século XVII (SOUSA, 2008d, p. 33-35; SOUSA, 2009b, p. 22-28), a matéria noticiosa resultava da observação pessoal, dos relatos de fontes, da troca de correspondência e do aproveitamento de notícias de outros jornais, que chegava à transcrição das mesmas. Os exemplos seguintes permitem observar, precisamente, o papel da correspondência na alimentação do fluxo informativo do periódico:

 

Ourém 5 de Dezembro

Recebemos carta de Ourém do dia 5 do corrente, que diz assim: Ontem, pela uma hora da tarde, fomos atacados pelas forças cabralinas (…). Depois de três horas de fogo, retirou o inimigo ao anoitecer (…). (10 de Dezembro de 1846)

 

Samora 6

Cartas de Samora dizem que chegara a Rio Maior o Lapa e que as bagagens haviam chegado ao Cartaxo. (10 de Dezembro de 1846)

 

Do dia 8. Por cartas de Leiria, às 2 horas da tarde, constava que as forças do coronel Lapa e Ferreira, ali reunidas, tinham estado em armas na precedente noite, em consequência da aproximação dos piquetes do conde do Bonfim. À hora a que as cartas se escreviam, reinava a maior confusão (…). Posteriormente a estas notícias, recebemos a informação de que essas forças passaram, em precipitada fuga, nos Carvalhos, na direcção de Rio Maior. (14 de Dezembro de 1846)

 

Nas notícias acima, é interessante notar, também, que, sem censura, não havia no Eco grande preocupação pela natureza confidencial de algumas informações militares. Revelavam-se os movimentos de tropas amigas e o que se sabia, ou se julgava saber, das movimentações do inimigo.

A correspondência era tão importante para alimentar o jornal de informações que o único suplemento encontrado do Eco de Santarém resulta inteiramente da transcrição de uma carta:

 

Suplemento ao Eco de Santarém

Temos a satisfação de dar ao público uma carta de Torres Vedras de 22 do corrente, escrita às 10 horas da manhã, em que o Ilustre General Conde do Bonfim expõe o brilhante estado em que se acham as forças nacionais.

É assim que desmentimos os falsos boatos que a canalha ministerial anda apregoando (…).

TORRES VEDRAS 22 de Dezembro de 1846, às 10 horas da manhã

(…) aqui estou com 3200 infantes (…), 200 cavaleiros (…), mil infantes os batalhões nacionais (…). O Saldanha está há um dia e meio a uma légua (…), com uns 3 a 4 mil homens, no Ramalhal e Amial. Estão muitos famintos, não tendo recebido mais de 2 meias rações de pão, nos últimos três dias, e por isso estão desgostosos. Os oficiais já não ocultam o seu dissabor, sem atinarem com o que pretende o seu general Saldanha. O conde das Antas, com 4 mil homens e seis bocas de fogo e 300 cavaleiros marchou ontem de madrugada e está a duas léguas do inimigo e a três da minha coluna. (…) As posições em que me acho são fortíssimas e com as forças que tenho poderia aqui defender-me muito bem contra 8 a 9 mil homens (…). À vista do exposto, o Saldanha será obrigado (…) a retirar (…).

P.S. Quando o portador saiu de Torres Vedras ontem ao meio-dia, rompia o fogo.

 

Apesar de no exemplo anterior, como noutros que se poderiam dar, seja notória a preocupação de mencionar com rigor, inclusivamente para efeitos de credibilização do discurso, o local, a data e até a hora em que a carta foi produzida, muitas das informações recolhidas e publicitadas no Eco eram vagas e imprecisas. Algumas basear-se-iam, possivelmente, no que o redactor ouvia contar nas suas deambulações pelas ruas lisboetas:

 

NOTÍCIAS

O visconde de Setúbal (Schwalback) chegou domingo à noite a esta capital. Ignora-se a razão desta vinda. O Governo parece desejar ocultá-la – correm diversas versões sobre este caso.

Dizem uns que houvera desinteligências entre ele e o Saldanha. Conta-se que este lhe chamara besta por causa da acção de Viana (…), e que o Schwalback respondera que mais besta era ele, Saldanha, porque estava há muito tempo pasmado sobre Santarém com medo de atacar. Outros dizem que o general suíço vem sustentar a capital, que se acha em perigo iminente de ser invadida. Seja o que for, o que é certo é que há pouca harmonia entre estes senhores (…). (11 de Dezembro de 1846)

 

Noutros casos, António Rodrigues Sampaio não oferece ao leitor pistas sobre a fonte de informação (embora se possa presumir que resultem de correspondência ou de outros jornais, sendo referidos locais e datas das mesmas):

 

Santarém 10

Ontem saiu daqui o brigadeiro Mousinho de Albuquerque, comandando uma coluna de mil homens de infantaria de linha, 100 cavaleiros e duas peças de artilharia. Vai reforçar a divisão do conde do Bonfim (…). (14 de Dezembro de 1846)

 

Porto 4

Tendo aumentado consideravelmente o número de homens e cavalos (…), ordena a Junta Provisória do Governo Supremo do Reino, em nome da Nação e da Rainha, que deles se formem um corpo, que se denominará Regimento de Cavalaria do Porto (…). (10 de Dezembro de 1846)

 

As observações do próprio redactor serviam, certamente, para a produção noticiosa. Os exemplos abaixo poderão resultar dessa actividade, sendo, neles, de realçar as preocupações pelo enquadramento da informação. De facto, Sampaio procurou, no primeiro exemplo, contrapor a malignidade tirânica dos adversários à resistência do povo e, nos restantes, acentuar a alegada desmobilização e descrença do inimigo:

 

Na terça-feira, no Terreiro do Paço, e quarta, foram tais as violências que praticaram os defensores do Ministério, que o povo (…) resistiu à soldadesca, e debaixo de vozearias “morram os ladrões” e de uma chuva de pedras, os perseguiram por algum tempo (…). (11 de Dezembro de 1846)

 

As poucas forças do Governo de Lisboa conservam-se nos quartéis. Todas estas noites tem havido grande agitação (…) e as notícias que de toda a parte chegam vem tornar a posição dos nossos inimigos (…) mais desesperada. Com a saída de forças para o Sul, Lisboa está quase desguarnecida. Desde o dia 9 do corrente até hoje, têm saído para o Sul do Tejo as seguintes forças.

Dia 8

Contingentes…. 125

Batalhão naval …. 114

Guarda Municipal  … 60

Cavalaria 4 e Municipal …. 23 (…). (11 de Dezembro de 1846)

 

NOTÍCIAS

As notícias que de toda a parte recebemos anunciam que o Governo de Lisboa poucos dias terá de vida. (…) Na capital, reina a maior anarquia, todos mandam, ninguém obedece. Na terça-feira, o Governo (…) quis mandar para a Piedade uns trinta homens da artilharia nacional, e no momento de levar a efeito essa ordem, nem um soldado se prestou a partir. Parece que os batalhões de voluntários estão pouco dispostos a morrer pelos olhos azuis de Sousa Azevedo. Já marcharam contudo uns contingentes de diferentes corpos, 125 homens e 13 cavaleiros da Guarda Municipal, para a outra banda.

No paço, queixam-se altamente da inacção do Saldanha (…). (10 de Dezembro de 1846)

 

Foi preso um passageiro, vindo no iate Napoleão, (…) por dizer que no Porto havia muita força e grande entusiasmo (…). O mestre do mesmo foi chamado ao Governo Civil e intimado, sob pena de ser preso, para não publicar notícias exactas do estado do Porto. (14 de Dezembro de 1846)

 

 

Muitas das notícias resultavam do aproveitamento de informações doutros jornais. A dependência deles para se saber o que se passava noutros pontos do país (e no estrangeiro) era grande:

 

Temos presentes periódicos de Coimbra e Porto. Até 7, deles extraímos o seguinte:

A Junta do Supremo Governo do Reino, por decreto de diferentes datas, havia restituído o tributo das sisas ao Estado (…). (14 de Dezembro de 1846)

 

A transcrição (quando necessário, traduzida) de notícias da imprensa estrangeira permitia, por sua vez, alimentar um considerável fluxo de informações na Europa, embora em muitos casos, num clima de guerra civil, fosse aproveitada, principalmente, para se escrever sobre o que “lá fora” se dizia sobre o que se passava dentro do Reino. Eis um exemplo comprovativo da forma como se usava a imprensa estrangeira para alimentar a causa patuleia:

 

No Chronicle de St James, jornal da Corte de Londres, em data de 21 passado, achamos o seguinte, que fielmente traduzimos.

A Família Real Portuguesa

Podemos assegurar que antes da partida da Corte para a Ilha de Wight, se deram ordens para o preparo de quartos no castelo de Windsor para o caso em que a Rainha de Portugal e El-Rei seu marido (…) julgassem conveniente aproveitar-se da hospitalidade britânica. (8 de Dezembro de 1846)

 

De qualquer modo, os métodos “artesanais” de obtenção de informações que existiam geravam uma grande morosidade na circulação de notícias, pelo que muitas das “novas” publicadas eram já “velhas” e, por vezes, vagas, a ponto de por vezes o próprio redactor se queixar:

 

Notícias do Norte

Temos periódicos do Porto até ao primeiro de Dezembro. Nada contêm de maior importância além do que já é sabido.

O regimento de fuzileiros da liberdade já contava no primeiro do corrente 400 homens (…). O Casal e Vinhais achavam-se ainda estacionados em Trás-os-Montes. Os partidários de D. Miguel continuam a sublevar-se na Província do Minho – deve, porém, fazer-se justiça aos cavalheiros deste partido, que faziam parte da coalizão, os quais têm sido fiéis aos seus compromissos.

Por decreto de 26 de Novembro decretou a Junta Provisória do Governo Supremo no Porto que todas as praças que no prazo de trinta dias se apresentarem voluntariamente (…) servirão unicamente enquanto durar a presente luta (…). (8 de Dezembro de 1846)

 

Um recurso curioso do Eco, repetido no Espectro, é a transcrição de correspondência interceptada ao inimigo. A informação dessa correspondência é sempre enquadrada, para gerar o significado pretendido pelo redactor e virar o que era dito contra os seus próprios autores. No exemplo abaixo, o marechal Saldanha chega a ser apelidado de “marechal das caras”, de forma a acentuar a ideia de que mudaria de opinião conforme as conveniências (e com as letras grafadas em maiúsculas, para acentuar a torpeza da sua posição):

 

Correspondência Interceptada

Abaixo transcrevemos a representação do marechal Saldanha dirigida à Rainha em 13 de Setembro (…). É mais uma cara que o marechal quis acrescentar às muitas que tem feito. (…)

Senhora! (…) POR UMA CONSEQUÊNCIA FORÇADA, E RESOLVIDO A NÃO CONCORRER (…) PARA AUMENTAR OS MALES DO MEU PAÍS, DEPOIS DE SÉRIA LUTA COMIGO MESMO, TOMEI A RESOLUÇÃO DE DESAMPARAR A POLÍTICA INTERNA, E PARA O PODER VERIFICAR DE UM MODO ABSOLUTO, ROGO A VOSSA MAJESTADE SE DIGNE ACEITAR A RENÚNCIA QUE FAÇO DO LUGAR DE CONSELHEIRO DE ESTADO EFECTIVO. (8 de Dezembro de 1846)



[1] Patuleia, de “pé descalço”.

[2] A colecção da Biblioteca Nacional (cota RES 302//2A) apenas possui quatro números e um suplemento, sendo o quarto número datado de 14 de Dezembro. Se O Espectro começou a ser publicado a 16 de Dezembro de 1846, assumindo-se como sucessor do Eco de Santarém, não é crível que tenham sido publicados mais números deste último periódico.

[3] Cota RES 302//2A.