Vieira, A. (1960)

VIEIRA, Alberto Tomás (1960). Memórias de um Repórter.

Autor: VIEIRA, Alberto Tomé
Ano de elaboração (caso não coincida com ano de publicação)
Ano de publicação/impressão: 1960
Título completo da obra: Memórias de um Repórter
Tema principal: Jornalistas e Vida Profissional
Local de edição: Lisboa
Editora (ou tipografia, caso não exista editora)
Número de páginas: 75

Cota na Biblioteca Nacional e eventualmente noutras bibliotecas públicas
Biblioteca: Biblioteca Nacional
Cotas: L.15853V.

Biblioteca: Biblioteca Pública Municipal do Porto
Cotas: Y7-8-118


Esboço biográfico sobre o autor ou autores (nascimento, morte, profissão, etc.)

Alberto Tomé Vieira nasceu em 1900, sendo a data do seu falecimento desconhecida. Trabalhou numa companhia de seguros mas resolveu seguir outro caminho, o jornalismo profissional. Fez parte da redacção do jornal “O Século” e exerceu o cargo de chefe de redacção do Diário de Notícias.


Índice da obra

Do jornalismo de ontem ao jornalismo de hoje: pp. 9-22
Quando os jornalistas eram “mulheres a dias” – salvo seja! : pp. 23-27
Era perigoso para a República dar voto às mulheres – dizia o Dr. Bernardino Machado: pp. 29-33
Um Governo de vinte e oito dias: pp. 35-39
Eram tantos os partidos que foi difícil escolher o nome para mais um: pp. 41-43
A verdade ia matar – a mentira vitoriou-nos: pp. 45-55
A condição é vocês ganharem as eleições: pp. 57-60
Censura responsável e censura irresponsável: pp. 61-66
O melhor detective português: pp. 67-75


Resumo da obra (linhas mestras)

Esta obra funciona como um livro de memórias da carreira jornalística de Alberto Tomé Vieira. No texto, o autor começa por descrever o jornalismo, afirmando que este é activo, intenso e noticioso, ao contrário de antigamente, em que não ocorriam tantos acontecimentos e onde o jornal era o único meio de informação. No passado, diz ele, os jornais abordavam temas banais, como: aniversários, casamentos e a vida social. Na actualidade, refere o autor, o jornal prefere as catástrofes, as descobertas científicas e a confusão internacional. “A velocidade de comunicação atinge a do som” (p. 11), transformando-se o jornal num “produto do tempo” (p. 11).

Relativamente aos jornalistas, o autor refere a existência de dois tipos, embora com a mesma aptidão: os que escrevem as notícias e os que fazem o jornal, ou seja, os que escolhem os temas, os títulos e a paginação. Estes últimos são cognominados de “cozinheiros” por Alberto Tomé(p. 13). As notícias ou reportagens, quando organizadas e concluídas, são enviadas para a tipografia, onde adquirem o nome de “peças” (p.14). Os títulos são designados por “cabeças” (p.14). As folhas de papel onde são escritas as notícias designam-se por “linguados” (p. 14). Às ilustrações dá-se o nome de “bonecos” (p. 14). Na tipografia, depois da notícia estar composta, tira-se uma prova dessa composição, à qual se dá o nome de “granel” (p. 15). Esta prova é enviada para revisão, que tem como função não deixar passar as “gralhas” (p. 15). Por vezes, ocorre um acidente tipográfico que mistura de forma confusa mais de uma notícia num granel, que se apelida de “empastelamento ou pastel” (p.15). Pode ainda acontecer que algumas linhas de uma notícia vão parar a outra, dando-lhe continuidade, como se tivesse ocorrido propositadamente. Este caso é designado por “salto” (p. 15).

Segundo Alberto Tomé Vieira, o trabalho jornalístico está sujeito a imprevistos, devido ao aparecimento de factos de última hora, à escassez de tempo e às exigências do leitor. “O leitor – esse terrível ditador que exige todo o nosso trabalho de todos os dias – por dez tostões” (p. 22).

Quando o autor iniciou a sua carreira como jornalista, narra o próprio, abundavam pequenos grupos, que se consideravam organizações jornalísticas. Estas nasciam e morriam a toda a hora. Havia uma carência de boas empresas jornalísticas. Sendo assim, os jornalistas viviam como “mulheres a dias” (p. 24), eram pagos pelo trabalho ao final do dia. Por vezes, não havia trabalho nem dinheiro. Neste sentido, os jornalistas eram forçados a descobrir casos, o mais insólitos possível, com o objectivo de serem publicados, para poderem garantir o seu sustento.

Alberto Tomé Vieira narra, depois, vários episódios da sua vida profissional, nos quais não reflecte sobre jornalismo, mas que são úteis para se entenderem as rotinas produtivas e os tipos de trabalhos encomendados aos jornalistas nessa época. Realça, igualmente, o seu envolvimento na política, o que mostra que, nessa época, era, de alguma forma, natural encontrarem-se jornalistas simultaneamente políticos.

Revela ele, assim, realizou uma entrevista ao senador Bernardino Machado, em que este manifestou a sua opinião relativamente à atribuição do direito de voto às mulheres, alegando que seria um enorme erro, devido à sua alma conservadora. Mais tarde, revelou-se o oposto: o voto foi autorizado às mulheres e o regime ficou mais estável, como nunca estivera.
Alberto Tomé Vieira relembra, igualmente, a revolução de 7 de Fevereiro de 1927, que o colocou na situação de maior perigo ao longo da sua carreira. Menciona que “O Século”, o jornal onde trabalhava, tinha ocupado sempre uma posição anti-revolucionária. Durante a revolução, o automóvel em que ele e outros jornalistas seguiam foi abordado por revolucionários. Graças ao facto de terem omitido ali a presença de um jornalista de “O Século”, o próprio autor, conseguiram poupar as suas vidas. Mais tarde, numa situação semelhante, o autor e alguns colegas foram novamente abordados por um grupo de indivíduos armados e, mais uma vez, com coragem e ocultação da verdade, conseguiram seguir caminho, em paz.
Em 1953, Alberto Tomé Vieira exercia o cargo de director do Diário de Notícias. Neste mesmo ano, houve eleições para deputados, abraçados pela habitual campanha eleitoral. Nessa campanha, a oposição ambicionava a realização de um comício em Lisboa, tendo procurado um empresário de uma casa de espectáculos, com a finalidade de conseguir o local para a realização do evento. Esse empresário, aceitou ceder a casa, impondo apenas uma condição: “Vocês garantirem-me que ganham as eleições” (p. 59). Perante esta proposta, o comício não se realizou. “Foi ainda neste período de muita propaganda (…) que um dos membros da comissão principal da campanha (…) telefonou para o Diário de Notícias, pedindo-me que o meu jornal publicasse (…) um comunicado qualquer. (…) Era um documento que não esclarecia a opinião pública (…), desorientava” (p.59). O jornalista aceitou publicar o comunicado, mas, aproveitando-se de uma “saída” (p. 60) que ouvira antes, decidiu apontar uma condição: “Você garantir-me que a oposição ganha as eleições” (p. 60). Deste modo, o comunicado não foi efectuado.

O autor revela que, em meados dos anos vinte, “houve necessidade de substituir a censura irresponsável pela censura responsável para a informação jornalística” (p.61). “A censura à Imprensa é tão condenável como a liberdade irresponsável. Mas foi ela (…) que encaminhou (…) os próprios jornalistas para uma acção profissional mais formativa” (p. 65), avalia o autor.


Autor (nome completo): Susana Patrícia Vasconcelos Cerejo
N.º de matrícula na UFP: 17703
E-mail: susanavasconcelos@hotmail.com

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Jornalismo UFP,
13/06/2010, 17:28