Aranha, Brito (1907/1908)

ARANHA, [Pedro Venceslau de] Brito (1907/1908). Factos e Homens do Meu Tempo. Memórias de Um Jornalista.

Autor

BRITO ARANHA, Pedro Venceslau de
Ano de elaboração (caso não coincida com ano de publicação)

1907 / 1908

Ano de publicação/impressão

1907 / 1908
Título completo da obra

Factos e Homens do Meu Tempo: Memórias de um Jornalista

Tema principal

História do Jornalismo

Local de edição

Lisboa

Editora (ou tipografia, caso não exista editora)

Livraria Editora e Oficinas Tipográfica e de Encadernação (1907)
Número de páginas

Total: 924

Tomo I: 301
Tomo II: 294
Tomo III: 329
Cota na Biblioteca Nacional e eventualmente noutras bibliotecas públicas
Biblioteca: Biblioteca Nacional
Cotas: H.G. 9280 V. / H.G. 9281 V. / H.G. 9282 V.

Biblioteca: Biblioteca Pública Municipal do Porto
Cotas: U1-9-142 / W3-9-142

Esboço biográfico sobre o autor ou autores (nascimento, morte, profissão, etc.)

Pedro Venceslau de Brito Aranha nasceu em 1833.
Aos 16 anos começou a trabalhar como aprendiz de tipógrafo. Mais tarde, devido ao seu cariz autodidacta, alcançou uma cultura acima da média. Colaborou nos mais diversos jornais e revistas. Foi escritor, jornalista e bibliógrafo português, continuador do trabalho de Inocêncio na produção do Dicionário Bibliográfico Português.
Foi membro da Sociedade de Geografia de Lisboa e sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa, para o qual foi eleito em 1 de Julho de 1886. As obras mais significativas de Brito Aranha são as seguintes: Leituras Populares, Instrutivas e Morais (1872); A Marinha Grande (1870); Memorias Histórico-Estatísticas de Algumas Vilas e Povoações de Portugal (1871); A Obra Monumental de Luís de Camões (1886); Subsídios para a História do Jornalismo nas Províncias Ultramarinas Portuguesas (1875); Nota Acerca das Invasões Francesas em Portugal (1909).
Brito Aranha morreu em 1914.
Índice da obra

Tomo I

1 – O Silva das “Barbas Brancas”: pp. 1-20
2 – O visconde de Juromenha: pp. 21-60
3 - Sampaio, jornalista: pp. 61-124
4 – O barão de Marajó: pp. 125-144
5 – Teixeira de Vasconecellos e a Gazeta de Portugal: pp. 145-178
6 – O dr. José Carlos Rodrigues e o Jornal de Commercio, do Rio de Janeiro: pp. 179-208
7 – Moraes Mantas e Manuel de Jesus Coelho: pp. 209 – 260
8 – Quatro dias em Madrid: pp. 261-288
Additamentos: pp. 289-300
Indicações dos nomes de escriptores, artista e outras pessoas, citadas no tomo presente: pp. 301-306

Tomo II

1 – Retrato de Alexandre Herculano: pp. 7-9
2 – Lembrança do insigne historiador para os editores Bertrands. Autographo: pp. 10-18
3 – Casa de Alexandre Herculano em Valle-de-Lobos: pp. 19-218
4 - Casa de Victor Hugo em Hauteville- house: pp. 219-220
5 – Victor Hugo no seu jardim em Hauteville- house: pp. 221-226
6 - Carta do egrégio poeta sobrescripto. Autographos: pp. 227-289

Tomo III

1 – Editores, livreiros e gravadores: pp. 6-37
2 – No Atheneu Commercial. Trecho de propaganda útil: pp. 38-69
3 - Sousa Neves e Santos Valente: pp. 70-85
4 – Camonistas antigos e modernos: pp 86-107
5 – Pinheiro Chagas. Páginas consagradas à sua memória: pp. 108-124
6 – O acto Tasso: pp. 125-126
No palco do theatro normal de D. Maria II – recordação saudosa de Manuela Rey – Lembranças de alguns escriptores dramáticos – Rodrigo de Lima Felner: pp. 127-134
Glorificação do actor: pp. 135-147
Glorificação da Imprensa: pp. 148-162
7 – Tito de Carvalho: pp. 175-191
8 – Um livro do Rei-artista: pp. 192-218
9 – Urbano de Castro: pp. 219-232
10 – O França, do Arsenal: pp. 233-242
Juízo da Imprensa acerca destas memórias: pp. 243- 292
De cartas endereçadas ao auctor: pp. 293-301
Nota final: pp. 302-312
Indicação dos nomes de escriptores, artistas e outras pessoas, os quaes são citados ou dos quaes se faz referência no tomo presente: pp1 313-318

Resumo da obra (linhas mestras)
Esta obra relata personalidades ligadas à escrita, jornalismo e política do final do Século XIX e início do Século XX.
No tomo I, o autor descreve António da Silva (o Silva das Barbas Brancas), como um veterano, popular, homem que aliou respeito e a amizade dos grandes e humildes. Nasceu a 31 de Julho de 1801, no lugar de Adão Lobo (Cadaval). Veio para Lisboa com a família aos 7 anos de idade, após a invasão de Junot a Portugal. Em 1821, já estava casado com D. Joana Francisca da Costa e Silva, tento interrompido a lua-de-mel para assentar praça no regimento das milícias de D. Jorge. António da Silva pôs várias vezes a vida em risco, por estar convencido que a felicidade da nação só seria possível através da liberdade, com óbvio sacrifício para a família. Foi preso em 1829, na conspiração do brigadeiro da brigada marinha. Faleceu em Junho de 1879, deixando três filhos vivos, dos catorze que teve durante a vida.
Fala do Visconde de Juromenha como um homem que “não perdia nenhuma ocasião de satisfazer o desejo de averiguar e saber” (p.23). Nascido em Lisboa a 25 de Maio 1807, com o nome de João António de Lemos Pereira de Lacerda, herdou a nobreza de seu pai, general Lacerda. A seu pai foram-lhe dados encargos confidenciais, aliados à sua inteligência e lealdade. O Visconde de Juromenha tomou o seu lugar, assumindo os mesmos princípios na Nobreza. Depois de emigrar durante quatro anos, casou-se e estabeleceu-se em Lisboa, no ano de 1937, para “dar à luz as primícias dos seus estudos históricos literários e artísticos.” (p. 33). Na sua estreia, publicou, de forma anónima, A Cintra Pnituresca, edição com 238 páginas, pela Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis. Nesta publicação, encontram-se referencias a Camões para “entrar mais afoustamente no estudo das obras do sublime cantor dos Lusíadas” (p. 38). Foi este o seu principal trabalho. Faleceu em 1877, rodeado dos seus parentes mais próximos. O autor considera uma perda nacional, o desaparecimento deste homem, pois não considera fácil substituir uma pessoa com “o seu carácter e tempera, a sua persistência nas convicções íntimas” (p.49).
António Rodrigues Sampaio nasceu em S. Bartolomeu do Mar, Esposende, a 25 de Julho de 1806, e faleceu em Sintra, a 13 de Setembro de 1882. O autor descreve-o como um jornalista e político português que, entre outras funções, foi deputado, ministro e presidente do ministério. Como jornalista “conquistou o titulo adequado de mestre, que lhe pertencia pelo valor de seus artigos e das suas controvérsias e a qualificação de patriarca do jornalismo que lhe davam todos os que viam nele talento e qualidades para o seu na mais selecta grei dos periodistas.” (p.58). Como redactor principal do periódico A Revolução de Setembro “demonstrou a pujança do seu talento, do seu valor de combate e onde ele chegou ao apogeu do periodismo, sem competidor na sua altura no discorrer do Século XIX.” (p.71).
José Estêvão Coelho de Magalhães nasceu em Aveiro, no dia 26 de Dezembro de 1809, e faleceu em Lisboa, no dia 4 de Novembro de 1862. Mais conhecido por José Estêvão, Brito Aranha considera-o como “um vulto notável que este periódico [Revolução de Setembro] representou e cujos escritos ardentes de sincero patriotismo e cuja palavra de assombrosa e convincente eloquência, lhe davam força e prestigio.” (…) (p. 73). Foi fundador do jornal Revolução de Setembro. O autor menciona que “quem lia a Revolução de Setembro não podia apreciar as ralações porque passara o pessoal operário para dar ao publico, mas regalava-se com o artigo enérgico, fogoso, que tinha saído do cérebro privilegiado de José Estêvão” (p.75).
José Coelho de Gama Abreu, conhecido por Barão de Marajó “pertencia a uma distinta família do Pará.” (p.127). Veio para Portugal muito jovem e concluiu estudos na Universidade de Coimbra. “Muito dedicado ao estudo e consciencioso cultor das boas letras (…), viajante corajoso e perspicaz, deixou alguns livros (…) como por exemplo Do Amazonas ao Sena, Nilo, Bosphoro e Danúbio, apontamentos de viagens, no qual há paginas interessantes que se lêem com deleite.” (p. 137).
António Augusto Teixeira de Vasconcelos foi um escritor e jornalista que nasceu no Porto, a 1 de Novembro de 1816. O seu plano “era fundar um periódico diferente dos que então circulavam e moldado pelos de grande formato”. Por isso, aos 9 de Novembro de 1862 saiu o primeiro número da Gazeta de Portugal” (pp.153-155).
José Carlos Rodrigues foi director do Jornal do Comércio e refere o autor que “com está publicação prestou o autor mais um serviço à sua terra natal e não será decerto o de menor valor para registar na sua longa e brilhante carreira” (p.181). O Jornal do Comércio considerado “ a folha que maior lustre e honra tem dado no longo lapso de quase um século à imprensa brasileira (…), um periódico em que pudesse dissertar com sinceridade e elevação” (p.196). Outro aspecto relatado é “a escolha dos seus colaboradores de máxima selecção, entre o que há mais distinto e afamado no mundo intelectual assim no Brasil como em Portugal” (p.200).
José António do Nascimento Moraes, residente na Rua do Loureiro, Porto, é apresentado pelo autor como um homem que aos 17 anos era já “barbado e rosado e tinha certa aparência de robustez” (p.211), “de um só rosto e de uma só fé” (p.213) e “que presidia a uma sociedade secreta” (p.213). A José António do Nascimento Moraes foi-lhe dado “o cognome de Mantas e não se julgando ofendido nem humilhado, antes considerando a alcunha como distintivo no seu brasão de industrial laborioso e democrata, adoptou a alcunha e acrescentou-a ao honrado nome que tinha e que legou aos seus herdeiros” (p.227). Moraes Mantas “faleceu de repente a 18 de Janeiro de 1862” (p.256).
Manuel de Jesus Coelho é classificado por Brito Aranha como publicista e activo político ligado à Revolução de Setembro. Trabalhou como tipógrafo e editou periódicos políticos como O Patriota, que “saiu até Abril de 1853, e foi então substituído pelo Português” (p. 221) edição que perdurou até Dezembro de 1866. Foi proposto pelos amigos “por um dos círculos de Lisboa para a Câmara dos Deputados, de cujas eleições se tratou em Novembro de 1851” (p.247).
Para finalizar, Brito Aranha resume a sua viagem a Madrid. Foi acompanhado por Jorge Hilário de Almeida Blanco e um moço inglês. Chegado a Madrid, alojou-se numa casa na Puerta del Sol, considerada “como o coração desta capital, por muitas razões belíssima” (p.268). Descreve a Puerta del Sol como “uma exposição permanente de modas, de luxo e de elegância” (p.269). Durante a viagem, assistiu a um casamento real, onde viu “perfeitamente a nova rainha, princesa da Casa de Áustria” (p.272). Descreve a eliminação da cidade e a multidão presente, “não menos de cem mil pessoas” (p.273). Depois da cerimónia, assistiu à primeira de duas corridas de touros “não como amador, mas como curioso” (p.276). Descreve “as carruagens particulares, todas as de aluguer, omnibus, char-à-bancs, carroças de carga existentes na cidade e circunvizinhanças, transformadas para receber passageiros, (…) o trajo predominante na denominada sociedade elegante e aristrocratica era de cores violeta, castanho e preto” (p.277). Visitou ainda “o Museu Nacional de Pintura de Madrid” (p.286), local com “belezas e riquezas que não se descreveriam bem num livro, quanto mais em uma carta escrita à pressa” (p.286). Para encerrar o capítulo da sua viagem, promete lá voltar para se “enlevar e inebriar diante de tantas maravilhas artísticas” (p.288).

No Tomo II, o autor biografa Alexandre Herculano e Victor Hugo, classificando-os de Publicistas.

No Tomo III, o autor pouco escreve sobre jornalismo. Relembra Sousa Neves, jornalista que editou o jornal revolucionário Lanterna. Menciona, ainda, Pinheiro Chagas que escrevia para a Gazeta de Portugal, um jornal onde por vezes se inventavam notícias. Revela o autor que, a maior parte das vezes, essas invenções davam mau resultado. Pinheiro Chagas disse: “Um dia inventei a história dos amores trágicos de um soldado da guarda municipal com uma sopeira, e pus alguns pormenores que podiam passar por verdadeiros” (p.122).

Autor: Maria Teresa Silveira e Gilberto Ramos
E-mail: lothartete@hotmail.com e Gil@bildmeister.net

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Jornalismo UFP,
18/05/2010, 18:31