Bessa, A. (1898)

BESSA, Alberto. (1898). A Associação de Imprensa Portuguesa. Sua Fundação e Actos da Comissão Instaladora e da Comissão Especial de Socorros Desde Setembro de 1897 a Março de 1898. Relatório.

Autor: BESSA, Alberto Ano de publicação/impressão – 1898
Título completo da obra: A Associação da Imprensa Portuguesa no 2º Ano da sua Existência
Tema principal: História do Jornalismo
Local de edição: Lisboa
Editora: Associação da Imprensa Portuguesa/Tipografia de “O Expresso”
Número de páginas: 51

Cota na Biblioteca Nacional - Cota: 
SC7058//9V.


Esboço biográfico sobre o autor

Alberto Bessa, escritor e jornalista, nasceu no Porto (29 de Setembro de 1861) e morreu em Lisboa (27 de Janeiro de 1938).

Principiou a sua carreira de jornalista como redactor principal do jornal socialista O Operário, do Porto, que, mais tarde, se fundiu com O Protesto, de Lisboa, chamando-se O Protesto Operário, com redacção nas duas cidades. O primeiro artigo em O Protesto Operário, que assinou com A. B. (iniciais do seu nome, empregues em toda a vida jornalística), saiu na primeira página da edição de 14 de Janeiro de 1883. Depois, o jornalista fundou e dirigiu publicações no Porto como A Semana, Miniaturas, Novidades, Velocipedista, Revista Luso-Espanhola, Galeria Portuguesa e Crónica, e colaborou em vários diários do Porto, como A Discussão, Dez de Março, Voz do Povo, República Portuguesa, Jornal da Manhã, Província e nos jornais humorísticos Zé-povinho, Tam-tam e Pimpolho.

O jornalista mudou-se para Lisboa em 1896, aos 35 anos, para trabalhar em O Século, a convite do seu director Silva Graça. Mais tarde, saiu para fundar o Diário, em 1902, com mais nove redactores efectivos do Século, em conflito com as posições do jornal na questão dos tabacos. Em 1906, tornou-se redactor efectivo do Diário de Notícias.

No ano da implantação da República, transferiu-se para o Jornal do Comércio e das Colónias. A morte do representante da empresa e director, a 12 de Julho de 1917, levou Alberto Bessa ao desempenho das funções de redactor principal e, a 1 de Janeiro de 1921, o seu nome aparecia, na cabeça do jornal, como director. Ficou nesse cargo até 1932, quando o conselho de administração passou a dirigir o jornal. O jornalista atingia os 70 anos de idade e no último editorial que assinou, escreveu:

“Não desrespeitei as gloriosas tradições do velho órgão jornalístico. […]Sempre procurei servir honestamente a imprensa sem a desprestigiar ou conspurcar, não tolerando sem os meus protestos – um dos quais teve mesmo certa retumbância – que outros a deslustrassem ou envilecessem, pois que, modesto como sou, zelei sempre a honra do meu nome e a dignidade da minha profissão”.

Além de uma vida dedicada ao jornalismo, Alberto Bessa escreveu teatro (O Cabecilha), poesia (Ondeantes, 1883), opereta (A reviravolta), colaborou com Guedes de Oliveira na imitação da opereta O Moleiro de Alcalá, Espanhóis em Melilha e Rebenta a bexiga e fez crítica (Palavra dos Lusíadas, 1895; Quem foi Almeida Garrett, 1903).

Consagrou grande actividade à vida associativa da classe, na antiga Associação da Imprensa Portuguesa e na Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, bem como a homenagens a vultos do jornalismo, como Rodrigues Sampaio.

Representaria ainda o Instituto de Coimbra, a Associação de Escritores e Jornalistas de Lisboa, a Real Academia Galega da Corunha e a Real Academia de Buenas Letras de Barcelona.


Índice da Obra
Duas palavras – 5
Instalação da secretaria – 6
Aprovação dos estatutos – 8
A exposição de Imprensa – 10
O congresso internacional jornalístico – 19
As leis de imprensa – 23
Concessão de subsídios – 30
Donativos e ofertas – 34
Cobrança de quotas – 39
Secretaria – 40
Os nossos mortos – 42
Exclusão de um sócio – 43
Movimento de sócios – 44
Subscrição no Brasil – 45
Diplomas de honra – 47
Actos diversos – 48
Ao terminar – 49
Conclusões – 50

Resumo da obra – linhas mestras

A Associação de Imprensa Portuguesa foi criada em 1897, tendo como Presidente Ludgero Vianna, J. V. D`Andrade Neves, como vice-Presidente, e Alberto Bessa, como Secretário. Além das questões da defesa da profissão de jornalista e da Liberdade de Imprensa, esta associação criou as bases de um sistema mutualista de apoio aos jornalistas e suas famílias, precursor da Casa da Imprensa. Este último objectivo é realçado logo nas primeiras páginas do relatório assinado por Alberto Bessa: “Vários associados e algumas viúvas, órfãos, etc., de antigos colegas, têm encontrado na nossa Associação um determinado conforto que, de outro modo, lhes escassearia”.

O relatório de actividades dedica vários capítulos às questões administrativas, como o movimento de sócios, o aluguer de sede própria, a instalação dos vários serviços, a aprovação dos estatutos, a concessão de subsídios, os diplomas de honra atribuídos e uma subscrição realizada no Brasil, cuja importante receita iria fortalecer o cofre extraordinário da instituição, “logo que as condições cambiais sejam favoráveis”, como é sublinhado no relatório.

Este documento revela, no entanto, três assuntos de bastante importância à época – a exposição de Imprensa, em Lisboa, o Congresso Internacional jornalístico e o debate sobre as leis de Imprensa.

Uma das principais e primeiras realizações da Associação da Imprensa Portuguesa foi a Exposição da Imprensa, em Maio de 1898, por ocasião do centenário da descoberta do caminho marítimo para a Índia. De um dos textos extraídos do número único de jornal que acompanhou a exposição, escreveu Alberto Bessa:

“Desde há muito que o meu espírito acariciava a ideia de promover como que a realização de uma parada das forças jornalísticas no nosso país, de modo a deixar ver, aos que as desconhecem, qual a importância entre nós adquirida por essas instituições”.

O próprio jornalista, e autor do relatório, ficara surpreendido pela enorme quantidade de publicações expostas e que se haviam reunido em pouco tempo. A venda do jornal, atrás referido, renderia 23$100 réis, proporcionando a exposição um saldo positivo, que foi canalizado para o cofre da instituição.

Pela mesma ocasião, a Associação da Imprensa Portuguesa fez-se representar no congresso internacional da imprensa, realizado em Lisboa, em Setembro de 1898. Apesar de não filiada no Bureau Central das Associações de Imprensa, promotor e organizador do congresso, pôde assistir e projectou ler uma mensagem na ocasião, que dizia:

“A liberdade de consciência, a mais bela e mais pura de todas as liberdades, ainda não é um princípio universalmente admitido, e a liberdade de escrever e de falar, que dela derivam, sofre ainda as consequências de regulamentações por vezes absurdas, injustas ou anacrónicas. […] Ao mesmo tempo, vemos que, em muitos países, os jornalistas, perseguidos impiedosamente pela lei, expiam, sob o peso das mais rigorosas sentenças, o crime de terem livremente exposto o seu pensamento, e quase sempre na intenção, louvável e digna de respeito, de defender a liberdade e a justiça. É o que acontece ultimamente, sobretudo em Itália, Espanha e mesmo Portugal”.

Esta preocupação com a defesa da Liberdade de Imprensa foi, aliás, uma constante da actividade da Associação e ocupa espaço importante no Relatório elaborado por Alberto Bessa. Os responsáveis da instituição não hesitaram em confrontar o Chefe de Governo e o seu Ministro da Justiça para os atropelos à Carta Constitucional, prejudicando a liberdade criativa dos jornalistas.

Mais tarde, interpelaram os próprios deputados da Nação, exigindo numa petição o fim da censura prévia e as prisões e as multas arbitrárias aos jornalistas: “Assim é que ao passo que nós vemos a absorção da justiça na polícia e um simples artigo de regulamento passar por cima da lei fundamental, que não autoriza a censura prévia, vê-mos também que uma lei especial, preparada contra os inimigos da sociedade, leva o seu desprezo pela imprensa até ao ponto de permitir que uma das suas malhas colha o jornalista inofensivo que no ardor do seu entusiasmo profere, sem a menor intenção criminosa, sem o menor vislumbre de rancor, uma palavra que possa ser tomada como agressiva a qualquer funcionário ou a qualquer autoridade”.
Por tudo isto, um simples relatório de actividades da Associação da Imprensa Portuguesa constitui um imprescindível instrumento de trabalho para a compreensão e o estudo da História do Jornalismo em Portugal!


Autor: João R. Oliveira e Silva
E-mail: rochaysilva@iol.pt
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Jornalismo UFP,
27/05/2010, 10:10