Martins, R. (1942)

MARTINS, Rocha.(1942). Pequena História da Imprensa Portuguesa.

Autor: MARTINS, Rocha Ano de elaboração (caso não coincida com ano de publicação)
Ano de publicação/impressão: 1941
Título completo da obra: Pequena História da Imprensa Portuguesa
Tema principal: História do Jornalismo
Local de edição: Lisboa
Editora (ou tipografia, caso não exista editora): Editorial Inquérito
Número de páginas: 114

Cota na Biblioteca Nacional e eventualmente noutras bibliotecas públicas
Biblioteca: Biblioteca Nacional Cotas: F. 5644
Biblioteca: Biblioteca Pública Municipal do Porto Cotas: V5-3-189


Índice da obra
Capítulo I – Antepassados do jornalismo; da Bíblia ao primeiro noticiarista português - 7
Capítulo II – A “gazeta” e os mercúrios – 9
Capítulo III – A “Gazeta de Lisboa” e os periódicos seus contemporâneos – 26
Capítulo IV – Movimento da Imprensa Portuguesa – 46
Capítulo V – Evolução da Imprensa – 57
Capítulo VI – Fases da imprensa republicana e doutrinária – 73
Capítulo VII – Outras folhas de combate – 91
Capítulo VIII – Periódicos da província, Açores, Madeira e colónias – 93
Capítulo IX – Periódicos satíricos e de caricaturas – 100
Capítulo X – Vários aspectos da imprensa


Resumo da obra (linhas mestras)

“Pequena História da Imprensa Portuguesa” aborda, no primeiro capítulo, os antepassados do jornalismo, dando especial ênfase à descoberta da imprensa, no ano de 1440. Um dos primeiros ensaios noticiosos publicados em Portugal remonta a 1626, da autoria de Manuel Severim de Faria, presbítero, doutor em Teologia e mais tarde cónego da Santa Sé. A “experiência”, em forma de carta, intitulava-se Relação Internacional do que se sucedeu em Portugal e nas mais províncias do Ocidente e Oriente desde o mês de Março de 1965 até todo o Setembro de 1626. Neste texto, o autor optou por dar grande relevo aos factos, definindo “marcadamente o seu propósito nos ensaios: não queria ver perdidas as novas. Era o cronista dos factos, o seu cultor e até comentador”. Tratava-se de um folheto de 52 páginas, recorrendo a um sentido que o jornalismo teria séculos depois, ou seja, “revelar os sucessos e, por vezes, explicá-los ou interpretá-los sob um critério”.

O segundo capítulo da obra de Rocha Martins envolve um período entre os anos 1641 e 1662. Nestas duas décadas, posteriores ao domínio espanhol no território lusitano, surgiram folhetos que começaram a ser publicados periodicamente. A Gazeta, divulgada pela primeira vez em 1941, foi pioneira, falando dos sucessos das tropas portuguesas ocorridos em Novembro do ano anterior. Aliás, “as notícias da guerra nas raias ocupavam grande espaço”. A Gazeta“aparecia atulhada de notícias preciosas para a história do seu tempo”, incluindo igualmente uma sessão intitulada “Novas de Fora do Reino”, que correspondia, nos dias de hoje ao Internacional. A sua divulgação foi interrompida um ano depois, “em virtude de faltar à verdade e ser mau o seu estilo”, ainda que os verdadeiros motivos devessem ter sido diferentes.

Entretanto, surge em Portugal o Mercúrio, da autoria de Sousa Macedo, homem ligado à política, que tentou colocar a imprensa portuguesa mais próxima da europeia. Contudo, “sentiu desde a primeira hora a hostilidade da soberana (…), não obstante ter contribuído para um enorme desenvolvimento no periodismo português.

Quase um século depois, a Europa assistiu a uma “explosão”de periódicos. No terceiro capítulo sobressai o “florescer” de periódicos pelo “velho continente”, entre 1715 e 1832. Em Portugal destacou-se a Gazeta de Lisboa, datada de 10 de Agosto de 1715. No seu primeiro exemplar “denominava-se Notícias do Estado e do Mundo e abria com um relato das diferenças entre Alemanha e Turquia”. A Gazeta de Lisboa era semi-oficial, ou seja, continha muitas notícias do Estado, e contava com a organização e redacção de José Freire Monterroyo Mascarenhas. A publicação da Gazeta de Lisboa impulsionou a criação de outros jornais, mas quase todas tiveram uma vida reduzida, excepção feita para o Folheto de Lisboa, que permaneceu na cidade durante oito anos. A norte do país surgiria um semanário de índole um pouco diferente, “indiciador de outras produções espirituais”, intitulado a Gazeta Literária, jornal que fez despoletar a criação de novos ensaios do género. Muitos outros foram os periódicos que continuaram a aparecer, ainda que efémeros. Importante também foi a criação do primeiro jornal publicado no Brasil. A Gazeta do Rio de Janeiro assumiu especial relevância devido à presença da família real em terras de “Vera Cruz”. A revolução “Vintista” “deu origem a um verdadeiro enxame de publicações”, das mais variadas espécies, salientando-se os periódicos dedicados às senhoras. Apesar de todos estes avanços, ainda “não existia jornalistas na acepção da palavra”. Mais tarde, com a “Vilafrancada”, e ao ser proclamado o regime liberal, o “órgão governativo passou a chamar-se Gazeta Constitucional do Governo (passaria depois a Diário do Governo) ” e tinha como missão publicar as leis.

“Pequena História da Imprensa Portuguesa” relata também o período romântico da imprensa. A contribuição da Revolução Francesa fez com que os jornais passassem a ser políticos e polemistas. Portugal seguiu os exemplos vindos de França sobressaindo “uma avalanche de publicações neste período”. O Nacional (1834-1843) foi talvez o diário mais importante. Havia ainda “numerosas folhas-relâmpagos que faiscavam e sumiam”. O Grátis foi outra publicação que se distinguiu, sobretudo pela forma como previa o futuro da publicidade. Começaram também a surgir as gazetas rurais, militares e de jurisprudência. Estas “folhas” eram suportadas pelo comércio e continham romances, notícias, versos, entre outros. A revolução de Setembro foi o jornal que mais destaque assumiu, devido à “maior sensação e larga longevidade”. Permaneceu no activo durante 52 anos, terminando no número 14.861. Por este periódico passaram pessoas ilustres, tais como: José Estêvão e Mendes Leite (fundadores) e António Rodrigues Sampaio (jornalista de grande prestígio). O periódico superou variadas fases, tais como, a revolta de Passos, passando pelo radicalismo, pela regeneração e terminando à esquerda dinástica.

O quarto capítulo reparte-se entre dois tipos de movimentos da imprensa portuguesa: por um lado as publicações jornalísticas católicas e, por outros, os periódicos operários. A Igreja, com a abolição das Ordens Religiosas, apercebeu-se que tinha deixado um espaço vazio. Assim, decidiu aproveitar-se das potencialidades da imprensa, “capaz de realizar grandes movimentos”. Foi muito movimentada a acção católica, através do papel de jornais, como o semanário A Cruz. No entanto, o periódico que mais marcou este tipo de jornais foi, sem dúvida o Correio Nacional. Primava pela modernização e inseria, simultaneamente, um noticiário capaz de despertar a atenção. A Ordem, O Portugal e As Novidades foram outros dos ensaios que tentaram impor-se no país, mas sem o mesmo sucesso do Correio Nacional.

No que diz respeito aos periódicos operários, o grande volte-face foi despoletado com o “Constitucionalismo”, que “levou os trabalhadores às lutas partidárias”. Ainda assim havia um grande entrave à propagação de jornais deste tipo, na medida em que o proletariado não sabia ler. Eco dos Operários, Jornal do Centro Promotor, Tribuna dos Operários e Federação foram alguns dos jornais que retrataram a vida das classes mais baixas. No entanto, para além da Voz do Operário, nenhum outro periódico conseguiu vingar da mesma forma, “cumprindo a sua missão (…) educativa e associativa sem especular politicamente”.

O quinto capítulo da obra, intitulado “Evolução da Imprensa” começa por falar do Jornal do Comércio (1852), um dos primeiros periódicos que “conseguiu manter-se pelos seus próprios meios” e que primava pela leveza, rapidez e pelo elevado poder de captação. O Jornal do Comércio viveu essencialmente de anúncios e de assinaturas, vindo, anos mais tarde, a remodelar-se, passando a chamar-se O Jornal do Comércio e das Colónias, transformando-se “no decano dos metropolitanos”. Outro exemplo de sucesso foi o Comércio do Porto (1854), responsável “por um grande papel na Imprensa Portuguesa”. Também o Primeiro de Janeiro conseguiu vingar transformando-se numa “folha de grande voz” e num “atraente colosso da imprensa”. Outro pioneiro do periodismo da época foi o Diário de Notícias (1864). Primava pelo equilíbrio e apostava no factor noticioso, “inaugurando o sistema de anúncios acessíveis, o que deu óptimo resultado” e, por isso, atraía as atenções do público e das pessoas interessadas em publicidade. O Jornal de Notícias (1865) surgiu ligado ao partido regenerador: “Havemos de estar sempre ao lado dos que mais do que ninguém, têm direito a não ser ludibriados, dos que labutam eficaz, mas ingloriamente, do povo enfim”.

Mais tarde, em 1884 apareceu o Correio da Manhã, a partir de A discussão, periódico que ganharia enorme relevo com a proclamação da república. O “Diário Ilustrado” também adquiriu notoriedade, sobressaindo a secção “High Life”, “onde se escreviam as notas da sociedade”.

“Fases da Imprensa Republicana e Doutrinária” é o título do sexto capítulo da obra de Rocha Martins. O primeiro jornal republicano surgiu pela mão de João Cândido de Carvalho: Cortador e Democrata foram os mais inovadores, colocando nas suas linhas uma “tendência anti-dinástica”. Entretanto fundou-se oficialmente o partido republicano, em 1872, grupo a que se associou o periódico O Trabalho. Muitos outros foram os jornais que se seguiram, no entanto, “ainda não havia público para sustentar os periódicos republicanos”. A excepção foi A Liberdade e, mais tarde, o Século. A nível regional, o “Povo de Aveiro” sobressaiu. Este semanário “atingiu tiragens formidáveis no período do regicídio e no reinado de D. Manuel II, pois proclamava verdades que ninguém se atrevia a escrever, nem mesmo a balbuciar”. Outro ícone dos jornais republicanos foi A Luta, um periódico “intelectual por excelência”. A Capital seguiu-lhe os passos, mas ainda com mais aceitação, conseguindo juntar vários jornalistas de renome. Na sua redacção a grande surpresa foi a inclusão de uma mulher – Virgínia Quaresma, a primeira mulher jornalista em Portugal. O Mundo foi outro periódico com grande impacto, tomando posições mais sensacionalistas, fazendo com que se tornasse no republicano com mais publicidade. Num âmbito mais doutrinário surgiu República, da autoria de António José de Almeida. Seara Nova e Pátria foram outros dois jornais doutrinários de relativo sucesso.

O sétimo capítulo da obra versa sobre “Outras Folhas de Combate”, com especial ênfase para o Diário Nacional (jornal de índole combativa monárquica), O Liberal e o Diário da Manhã. Este último viria a tornar-se órgão do Estado Novo.

Mas nem só nas duas grandes cidades se foram produzindo periódicos, como explica o oitavo capítulo. Cidades como Coimbra (Jornal de Coimbra, Despertar Nacional, O Conimbricense), Aveiro (Boletim da Torreira, Campeão das Províncias, Campeão do Vouga), Santarém (Eco de Santarém, Scalabitano), Viseu (Viziense, Viriato), Setúbal (Setubalense), Figueira da Foz (A Voz da Justiça), Braga (Diário do Minho), Elvas (Voz do Alentejo), Caldas da Rainha (O Caldense), Tomar (A Verdade), Vila Real (O Transmontano), Águeda (Soberania do Povo), Évora (Diário do Alentejo), Leiria (Leiriense), Abrantes (Jornal de Abrantes), Tavira (A Província do Algarve) foram apenas alguns dos jornais que foram aparecendo em Portugal Continental. Nas ilhas, em especial nos Açores, “houve sempre muitos periódicos, sendo o mais antigo das ilhas e do país o Açoreano Ocidental. As colónias também acompanharam este movimento, sobretudo no Oriente.

No nono capítulo, Rocha Martins debruça-se sobre “Periódicos Satíricos e de Caricaturas”, nomeadamente no que diz respeito à “crítica pela caricatura”. Bordalo Pinheiro foi uma das figuras de destaque. O criador do “Zé Povinho” foi igualmente responsável pela criação de vários periódicos, fazendo “mais para o advento da república com os seus jornais do que outros jornalistas do partido”. Lanterna Mágica, Mapa de Portugal e A Paródia” foram apenas três dos jornais por ele criados. De entre outros caricaturistas notáveis, realce para Francisco Valença, Carlos Botelho, Jorge Colaço, Julião Machado e José Maria da Cruz, homens que demonstraram excelente poder de observação, como verdadeiros artistas da sátira.

O décimo e último capítulo tece algumas considerações sobre “Aspectos da Imprensa”. Numa primeira parte é explicado o papel do panfletário: “deve ser um escritor em ataque aos regimes, correndo perigos e nanja os que alvejam os adversários à sombra do poder”. Pessoas como José Agostinho de Macedo, João Chagas, Pádua Correia, José Caldas e Manuel Ortigão Burnay e de S. Boaventura D. Frei Fortunato foram os mais distintos.

Na segunda parte é explorada uma componente diferente dos periódicos: ilustrados, de modas e de desporto. “O primeiro periódico ilustrado português intitulava-se Armazém Interessante. A evolução deste tipo de jornais levou a um grande processo de melhoramento gráfico. Muitas outras tentativas foram feitas mas não foram felizes, tais como: Arquivo Pitoresco, Ilustração e o Jornal Universal, entre muitos outros. “Outros periódicos interessantes e de muita leitura são os desportivos (…) o mesmo poderemos dizer em relação aos jornais de cinema e de teatro e aos das diversas classes”. Muitas outras temáticas começaram a ser abordadas, tais como: tauromaquia, agricultura, vida militar, anúncios, infantis, vida académica, etc.


Autor: João Ricardo de Carvalho Vieira
E-mail: jricardocvieira@gmail.com

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Jornalismo UFP,
01/06/2010, 10:51