Freire, J. (1936)

FREIRE, João Paulo (1936). Escolas de Jornalismo. Temas Profissionais.

Autor: FREIRE, João Paulo da Silva Veneno
Ano de elaboração (caso não coincida com ano de publicação): 1936
Ano de publicação/impressão: 1936
Título completo da obra: Escolas de Jornalismo – Temas Profissionais
Tema PRINCIPAL: Ensino do Jornalismo
Local de edição: Porto
Editora: Educação Nacional
Número de páginas: 51

Cota na Biblioteca Nacional e noutras bibliotecas públicas
Cota na Biblioteca Municipal do Porto: NI – 12 – 181
Cota na Biblioteca Nacional: L. 28170//1P.


Esboço biográfico do autor

Ilustre personagem da viragem do século XIX para o século XX, João Paulo Freire nasceu na Murjeira (Mafra), a 14 de Setembro de 1885. Era jornalista de profissão, mas também se destacou como poeta, ensaísta, novelista e cultor de outros géneros literários.

Trabalhou em vários jornais e, em 1932, fundou o Diário da Noite. Recebeu vários prémios devido ao seu talento e profissionalismo.

Casou com uma farmacêutica, Judite Lúpi Nogueira Freire, e teve duas filhas: Judite e Maria de Lurdes. Faleceu no dia 16 de Janeiro de 1953 com 68 anos de idade, na sua casa, em Lisboa, vítima de uma doença prolongada.


Índice da obra

[Não tem índice]

Propostas de Escolas de Jornalismo – pp. 9 – 18
Um verdadeiro Jornalista – pp. 19 – 21
A constituição de um jornal – pp. 21 – 27
As categorias dentro de um jornal – pp. 28 – 32
O vencimento dos jornalistas – pp. 32 – 36
A formação dos jornalistas – pp. 37 – 38
Informadores, repórteres e redactores – pp. 39 – 41
Proposta de um curso geral – pp. 42 – 43
Curso Superior de Jornalismo – pp. 43 – 45
Os Sindicatos para os jornalistas – pp. 46 - 51


Resumo da obra (linhas mestras)

Este livro do jornalista João Paulo Freire é extremamente importante para a compreensão da teorização do jornalismo feita por portugueses porque foi o primeiro a ser publicado em Portugal que incidiu sobre o tema da formação dos jornalistas. O autor diz, assim, em consonância, que o seu principal objectivo foi colocar diante do país a sua ideia de criação de escolas de jornalismo. Considerava o autor ser este um problema interessante e, ao mesmo tempo, socialmente relevante.

O autor recorda que em 1932 publicou no Diário da Noite, jornal que fundou e dirigiu, quatro artigos sobre escolas de jornalismo, recolhidos no livro. Estes artigos abordam a necessidade da existência, ou não, de escolas para os jornalistas. “No nosso país (…) o jornalismo faz-se (…) ou por vocação e auto-didatismo, ou por necessidade; e embora haja profissionais, não existe ainda entre nós, para tal, aprendizagem escolar e científica, apesar do jornalismo ser uma profissão como a medicina, o notariado, a advocacia ou outra qualquer ” (p.9), diz João Paulo Freire, evidenciando, assim, que havia já, nessa época, um certo entendimento do jornalismo como profissão liberal.

Relembra João Paulo Freire que a educação dos jornalistas começou a ser discutida a sério, em Portugal, no 5º Congresso Internacional da Imprensa, realizado, em 1898, em Lisboa. Albert Bataille foi, segundo Freire, o defensor da necessidade da educação profissional dos jornalistas durante o evento. Disse Bataille, citado por Freire, nessa ocasião: “Com o aperfeiçoamento das máquinas de imprimir, com o telégrafo e com o telefone, com a transformação do espírito público, cada vez mais ávido de ser informado, uma metamorfose de operou (no jornalismo): a polémica foi relegada para segundo plano e a informação passou para o primeiro. E quando dizemos informação, encarámo-la sobre todas as suas fórmulas, com a maneira pessoal que lhe possa imprimir o talento do autor: quer se trate de crónica literária, crítica de arte, extractos das Câmaras ou dos tribunais, viagens ou expedições. (…) Por isso é necessário que a educação geral do jornalista seja completada pela educação profissional” (p. 10). Com estas palavras, Bataille não apenas deixou gravada para a posteridade a percepção que se tinha das transformações no jornalismo no século XIX (predominância da informação sobre a opinião), ideia que Freire acentua na página 27 ao exclamar que “o melhor jornal era aquele que melhor falava ao coração, hoje (…) é aquele que fornece melhores notícias (…) em maior número”) como também relembrou algumas das tarefas cometidas aos jornalistas na transição do século XIX para o XX e repisou uma ideia que já tinha expressões concretas na Europa e nos Estados Unidos desde o início de Oitocentos: a necessidade de formação específica para os jornalistas. João Paulo Freire relembra, aliás, não só várias dessas experiências como também alguns dos ilustres defensores dessa ideia (como Périvier, director do Figaro; Tavernier, da Universidade Católica de Lille; e Adolf Kock, que oferecia, na Alemanha, um curso livre de jornalismo). Em especial, João Paulo Freire passa em revista o curso de John French Johnson, na Universidade da Pensilvânia, que durava quatro anos e incluía disciplinas de história da imprensa, legislação, economia política e social, ciência política e expressão jornalística. Relembra Freire que o curso de Johnson mantinha um jornal, redigido pelos estudantes. No entanto, segundo Freire, Bataille queria mais. Queria, segundo Freire, um curso “completo” com “cursos e conferências (…) dirigidas não por jornalistas, mas por professores universitários, línguas estrangeiras, história da arte, história contemporânea e economia política, história do progresso das ciências e história do teatro contemporâneo” (p. 13) e ainda que no recrutamento de futuros estudantes de jornalismo se privilegiassem não apenas os conhecimentos gerais anteriores dos candidatos mas também a sua “moralidade”.
João Paulo Freire recorda que, em 1899 surgiu, em França, a Escola de Jornalismo do professor Henry Fouquier. Apesar de, segundo Freire, essa escola possuir um bom programa, “falhou” por razões que o autor desconhecia. O curso dessa escola assentava, como muitos outros, em disciplinas técnicas (redacção jornalística, conhecimentos sobre o funcionamento dos jornais, impressão, composição e paginação, etc.) e de conhecimento geral e aplicado (história da imprensa, legislação aplicável ao jornalismo, história contemporânea, economia política, ciência política, etc.).

Em suma, a lógica da formação de jornalistas do final de Oitocentos mantém-se, de certa forma, no mundo contemporâneo: pois assentava, como assenta, em três grandes áreas: técnica; ciências sociais e humanas aplicadas; ciências sociais e humanas em geral. Descrito o curso de quatro anos de jornalismo de Fouquier, o autor considera que, apesar de muito completo, ainda não era o que mais certo estava. “Uma escola de Jornalismo é indispensável, mas uma escola de jornalismo prático, e não de jornalismo de diplomas”, sentencia João Paulo Freire (p. 17).

O autor tenta, seguidamente, explicar quais as características de um bom jornalista. Para ele, um bom jornalista nasce já com uma certa vocação para a profissão (“os maiores jornalistas de todos os países não tiraram o curso de jornalismo”, escreve Freire na página 20), mas é do seu interesse melhorá-la com uma educação conveniente. Freire afirma, por exemplo, que um bom jornalista tem de ter conhecimentos acerca de todas as áreas da vida em sociedade, algo que só uma cuidada educação pode dar. O mundo transforma-se – salienta ainda Freire, pelo que o bom jornalista tem de estar permanentemente actualizado.

A constituição típica de um jornal português dos anos trinta é igualmente referida nesta obra.

Diz João Paulo Freire que um jornal dessa época tinha duas divisões gerais: a redacção e a administração. A redacção é, por sua vez, dividida em várias secções: política, social, falecimentos, desporto, etc. Cada uma das secções, segundo Freire, exige a liderança de um técnico especialista, “que se faz acompanhar de redactores, repórteres e informadores da sua confiança” (p. 22). Nesta parte do seu livro, Freire não apenas evoca as categorias profissionais dos jornalistas portugueses no início dos anos trinta (por ordem hierárquica, redactores, repórteres e informadores), mas também, implicitamente, reconhece que a profissão jornalística possui um cunho técnico. No entanto, adverte o autor: “Não basta hoje, para a confecção de um jornal, o conjunto (…) de boas vontades. É necessário que a essas boas vontades presida o saber, a competência, a cultura. Evidentemente, não se exige que um simples informador, ou mesmo um repórter, tenha uma cultura excepcional. Se a tiver, melhor. Mas requer-se que um chefe de redacção, um redactor categorizado, seja um jornalista com uma cultura geral e uma especialização, tanto quanto possível perfeita”. Num comentário, ontem como hoje já se observada a necessidade de especialização se não de todos, pelo menos de alguns jornalistas.

A administração é, por seu turno, segundo Freire, a “chave mestra dum jornal” (p.23). Dividida igualmente em varias secções, a administração terá que ser muito competente para que um jornal funcione bem, mas tem de estar perfeitamente separada da redacção: “Num jornal que mereça este nome, os empregados duma redacção não devem poder entrar na administração, nem os da administração na redacção” (pp. 24-25), escreve Freire, indiciando já o conceito de que o jornalismo é uma profissão com fronteiras e limites.

Além da administração e da redacção, um jornal, de acordo com Freire, tem de possuir uma boa biblioteca, uma secção de telefones e um competente sector de revisão, com revisores que aliem a sabedoria e o profissionalismo.

Na sequência do seu livro, João Paulo Freire critica algumas escolas de jornalismo norte-americanas por oferecerem, segundo ele, cursos por correspondência. Mas para chegar à escola de jornalismo ideal, Freire prefere retomar o tema das categorias profissionais dos jornalistas, excluindo as figuras especiais do chefe de redacção, chefe de secção e redactores principais. Relembra o autor as três categorias de jornalistas: os redactores, os informadores e os repórteres, cada qual com as suas responsabilidades, as exigências de cultura, o seu âmbito de acção e os seus vencimentos. “O informador é o que informa, sem responsabilidades de redacção. Repórter é o que se dedica à reportagem de acontecimentos com relativa responsabilidade de redacção. Redactor é o que toma, perante os chefes, a responsabilidade redactorial do que escreveram o repórter e o informador, ou o que ele próprio redigiu”, explica Freire (pp. 29-30). Assim, “Se há (…) responsabilidades diferentes, há, ou deveria haver, conhecimentos e cultura superiores. Logo, um curso para jornalistas tinha de ser geral e superior.”, argumenta Freire. Mas, “Antes disso, tinha de se estabelecer (…) o regime de categorias e o salário mínimo. Não se compreende, por exemplo, que haja jornais onde os redactores ganhem menos do que os informadores doutros jornais”, salienta Freire, defendendo uma lei de imprensa que desse aos jornalistas liberdade absoluta, mas que também os punisse com rigor, em tribunais sumaríssimos; que impedisse a organização de jornais “à matroca, sem direitos nem deveres para com os seus servidores, sem organização profissional” e que assegurasse aos jornalistas reformas e protecção na saúde e na invalidez. Esta preocupação de João Paulo Freire tem, aliás, um tom bem contemporâneo, tantas as vezes que o Sindicato dos Jornalistas clamou, recentemente, contra a criação de empresas jornalísticas mal organizadas e com péssimos planos de negócio, que, ao falirem, atiraram e continuam a atirar para o desemprego milhares de jornalistas.

No penúltimo capítulo da obra, baseado no quarto dos artigos que escreveu no Diário da Noite, João Paulo Freire continua a abordar a questão da existência de escolas de jornalismo, embora, acusadoramente, tenha escrito que onde se tentaram criar “se caiu ou no fracasso ou na vigarice” (p. 37), ideia que à luz do que conhecemos hoje parece deslocada e injusta. Diz João Paulo Freire que “Uma escola de jornalistas não pode ser um curso de tretas, nem uma academia de larachas. Tem de ser um curso especializado, não para improvisar jornalistas, mas para completar o jornalista.” De qualquer maneira, João Paulo Freire continua a defender que deveria ser criada uma escola de jornalismo, com dois cursos: um geral e outro superior, em função das necessidades específicas de informadores, repórteres e redactores. Esta discriminação é muito vincada na mente de Freire, pois este escreve, talvez em sintonia com a conjuntura cultural da época, ou seja, da forma como, então, se olhava para o mundo: “Uma pessoa medianamente instruída (não digo culta) pode muito bem ser um jornalista informador ou um jornalista repórter. Mas se for apenas medianamente culta, já não deve aspirar a ser um jornalista redactor e muito menos um jornalista chefe ou um jornalista director. (…) Para um informador, o saber ler e escrever é o bastante. (…) Para um repórter, não é necessária uma cultura especializada, embora esta lhe não faça mal (…). Mas não ficaria mal se ao repórter profissional se exigisse o 5º ano dos nossos liceus. (…) Mas para o repórter o que se exige (…) é que ele tenha vocação. (…) Pode ser-se ao mesmo tempo repórter e redactor e então ser-se-á um jornalista completo. (…) Resta-nos (…) o redactor (…) que, pela sua posição dentro dum jornal, necessita ser um homem culto. Para o informador e para o repórter, a vocação é tudo, o resto auxilia. Para o redactor, a vocação não basta. Necessita, além duma cultura geral, conhecimentos especiais (…) e (…) para ingressar no (…) jornalismo devia exigir-se-lhe, além dum curso, a devida especialização” (pp. 40-41). Que habilitações defende, então, João Paulo Freire para os redactores? O curso geral dos liceus, acrescido de um ano de “preparação jornalística” onde o candidato adquirisse conhecimentos sobre história do jornalismo, organização dos jornais e técnicas de redacção e, para quem tivesse “aspirações de mando e destaque” (p. 43), um curso superior de jornalismo, agregado ao de letras, com três anos de duração e com defesa de uma tese no final. O primeiro ano seria, essencialmente, dedicado ao estudo da história do jornalismo, da organização dos jornais e das funções sociais do jornalismo no mundo; o segundo ano seria dedicado à aquisição de competências e conhecimentos técnicos (redacção, impressão) e ainda ao estudo de aspectos básicos da administração das empresas jornalísticas; finalmente, no terceiro ano, abordar-se-ia a legislação da imprensa e rever-se-ia toda a matéria dada.

O último capítulo do livro é dedicado ao associativismo e sindicalismo jornalísticos. O autor considera que a Associação de Trabalhadores da Imprensa, que deu lugar ao Sindicato dos Profissionais da Imprensa, entretanto desaparecido para dar lugar à Caixa dos Trabalhadores da Imprensa, e o recém-criado, naqueles tempos, Sindicato Nacional dos Jornalistas “a que pertencem alguns jornalistas e outras pessoas que por tal se intitulam” (p. 46) não davam resposta às necessidades da classe. O autor defende, assim, a criação de um sindicato que agrupasse todos os trabalhadores da imprensa (por razões de força), repartidos por secções específicas, de acordo com o sector em que trabalhavam (tipografia, redacção, etc.), que agregasse uma caixa de pensões e reformas. Esse sindicato deveria ter um tribunal arbitral que resolvesse questões laborais, nomeadamente situações de incumprimento do contrato de trabalho.

Merece realce a preocupação de Freire com o futuro dos jornalistas, pois, conforme ele próprio escreve sobre a dramática situação dos jornalistas portugueses no início dos anos trinta, “Não se compreende que um jornalista que deu ao seu jornal 30, 40, 50 anos de esforço chegue ao cabo da vida esmolando a graça duns míseros cobres ou a complacência das empresas onde continua como um tropeço inútil e incómodo que só por caridade se tolera.” (p. 34)


Nome dos autores da ficha bibliográfica: Patrícia Cristina Araújo e Jorge Pedro Sousa
E-mail: princesa1987_1987@hotmail.com / j.p.sousa@mail.telepac.pt
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Jornalismo UFP,
28/05/2010, 14:39