Cabral, A. (1949)

CABRAL, António (1949). As Minhas Memórias de Jornalista. Cenas da Política, Lutas da Imprensa, Cartas Inéditas.

Autor: CABRAL, António
Ano de Elaboração: 1949
Ano de Publicação /Impressão: 1949
Título completo da obra: As Minhas Memórias de Jornalista: Casos da Política – Lutas da Imprensa – Cartas Inéditas
Tema principal: Jornalistas e Vida Profissional
Local de edição: Lisboa
Editora: Edições Gama
Número de páginas: 195

Cota na Biblioteca Pública Municipal do Porto.
Cota da Biblioteca Pública Nacional do Porto: S2-104
Cota da Biblioteca Nacional: L.38971 P.


Esboço biográfico sobre o autor:

António Ferreira Cabral Pais do Amaral (1863 - 1956), jurista, foi ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria de 27 de Dezembro de 1905 a 19 de Março de 1906, durante o Governo de José Luciano. Ocupou, igualmente, a pasta de ministro da Marinha e Ultramar, no Governo de Campos Henriques, de 26 de Dezembro de 1908 a 11 de Abril de 1909. Acérrimo apoiante do Partido Progressista (fusão entre históricos e reformistas, de todos os liberais que não se assumiam como conservadores, em oposição aos militantes do Partido Regenerador), propagandista monárquico. Foi biógrafo (Camilo Castelo-Branco e Eça de Queirós), escritor (As Minhas Memórias Políticas; Na Linha de Fogo, Lisboa, 1930; Em Plena República, Lisboa, 1932; As Minhas Memórias de Jornalista, Lisboa, 1949.), político e jornalista.


Índice da obra:

Prefácio…………………………………………………….Página 9
Capítulo I – Jornalismo e jornalistas ……………………. Página 23
Capítulo II – Primeiros passos…………………………….Página 59
Capítulo III – Em Lisboa ……………………………. ……Página73
Capítulo IV – No fragor da luta …………………………. Página 95
Capítulo V – “O Liberal” ……………………………. … Página 121
Capítulo VI – Depois de vir a República ………………….Página 151


Resumo da Obra

Capítulo I (pp. 23-58)

O livro aqui sumariado é, como adiante se verá, uma biografia auto-elogiosa do seu próprio autor, que destaca o respectivo papel em assuntos da mais diversa importância, nomeadamente como jornalista monárquico. Datado de 1949 e da autoria de António Cabral, nele se descrevem as memórias do jornalista que o autor foi e se relembram os colegas de profissão.

Paralelamente, o autor tece opiniões pessoais quanto ao papel do jornalista, enquanto profissional condicionado por inúmeros acontecimentos de cariz tanto histórico como político.

Inicialmente, o autor refere Saint Beuve, assinalando-o como o mais ilustre crítico do século XIX e esboçando aquilo que crê ser um verdadeiro jornalista: “um ser que tem de abranger, com a sua inteligência, muitos aspectos da História, da filosofia, da política, da vida, enfim.” (p. 25).

Antagonicamente, António Cabral traça, em breves linhas, uma crítica àqueles que se consideram jornalistas que, no entanto e no seu entender, “não passam de presunçosos”. Passa, então, a enumerar aqueles jornalistas que, no seu perecer, marcaram o século XIX em Portugal.

Refere Emídio Navarro, que considera o “mais brilhante” jornalista português da segunda metade de Oitocentos (p. 26), advogado, jornalista crítico, porém brilhante. Descreve-o como astuto e fundador, em 1885, do diário vespertino generalista Novidades, extremamente censurado pelo carácter provocante, violento, injurioso e tumultuoso. Cabral relembra, porém que o Novidades se torna o jornal lisboeta da moda, pelo seu sensacionalismo.

Seguidamente, o autor evoca Mariano de Carvalho, jornalista que se refugiava no isolamento e tranquilidade do seu gabinete, onde escrevia os seus artigos políticos. António Cabral diz que esses artigos eram perfeitos e irrepreensíveis, cheios de conceitos e sentenças substantivas. Relembra, então, que Mariano de Carvalho entrou para a redacção da Gazeta do Povo, assumindo, pouco depois, a direcção do jornal O Paiz. Mais tarde, diz Cabral, este jornal transforma-se n’ O Progresso, sendo Mariano de Carvalho o redactor-principal. António Cabral diz ainda que Mariano de Carvalho pertenceu à redacção do Correio da Noite, concluindo que esta personagem oitocentista foi um jornalista límpido e leal na maneira de argumentar.

António Enes é o jornalista que António Cabral relembra a seguir. Diz dele que faleceu prematuramente e que foi fundador do vespertino periódico O Dia, demonstrando avultadas qualidades e notáveis méritos como jornalista. Salienta, finalmente, António Cabral que Enes foi o jornalista que presidiu, em 1898, ao Congresso da Imprensa, realizado em Lisboa.

Seguidamente, o autor fala do jornalista António Rodrigues Sampaio “o Sampaio da Revolução, o Sampaio do Espectro” (p.38). Explica o autor que Sampaio, após abdicar da formação religiosa, ingressa na redacção do jornal A Revolução de Setembro. Este publicou O Espectro, folha clandestina, espécie de panfleto jacobino democrata, contendo fervorosos textos políticos contra a monarquia estabelecida. António Sampaio foi considerado um jornalista fogoso, vindo a falecer em Setembro de 1888.

António Cabral de seguida fala de António Augusto Teixeira de Vasconcelos, bacharel formado em Direito, na Universidade de Coimbra, parte para África onde advoga, continuando a sua carreira jornalística, iniciada ainda durante a sua vida académica. António Augusto Teixeira de Vasconcelos funda em 1862, em Lisboa, a Gazeta de Portugal e em 1875, funda o Jornal da Noite. Embora gago, apresentava um estilo sóbrio e clássico, tanto oral como escrito. António de Vasconcelos foi considerado, no seu tempo, uma figura controversa, mas acima de tudo um verdadeiro jornalista, vindo, após uma vida acidentada, a falecer em Paris.

Outro magnífico jornalista a que António Cabral refere é o Manuel Pinheiro Chagas, um homem das Letras e do Humanismo. Este foi um trabalhador incansável no Correio da Manhã. Era um orador expressivo, um jornalista de estilo fácil, interessante e encantador, escrevendo para a Gazeta de Portugal, para o Jornal do Commercio e brilhando no diário político e literário Correio da Manhã.

José Fernando de Sousa foi, na opinião de António Cabral um verdadeiro jornalista com “aptidão e competência para tratar qualquer assunto, ou discutir qualquer questão, ou versar qualquer problema”. (p. 47) Escreveu, colaborou e fundou o Correio Nacional, A Ordem, A Época, A Voz. José Fernando de Sousa possuía um estilo irregular, porém convincente, persuasivo e de agradável leitura. Contudo o seu temperamento forte levava-o à extrema defesa dos princípios que professava, acarretando, em consequência, desgostos graves. No entanto, nada ou ninguém o desviava do seu rumo.

Segundo Cabral, José d’Alpoim, possuía de um belo estilo, sofria de grafomania, levando o seu vício pela escrita a textos mais negligentes. José d`Alpoim escreveu para: Correio Portuguez, Repórter, O Primeiro de Janeiro, Correio da Noite, O Dia. Foi um jornalista particularmente político, de temperamento ardente e impulsivo, sequentemente controverso. Detentor de uma oratória e memória magníficas, declamava os seus textos cuidadosamente escritos.

Posteriormente António Cabral relembra o jornalista José Barbosa Colen, ajudado por Emídio Navarro, este escreveu no Correio da Noite, passando mais tarde a auxiliar na redacção da Novidades. A pulso e a custo de muito trabalho, sobe os excessivos degraus da carreira jornalística, tornando-se no director efectivo, após a morte de Navarro, do Novidades. Mais tarde este falece em 1917.

Outro jornalista a que António Cabral se refere é Carlos Lobo d’Ávila um jornalista distinto, fundador de O Tempo e colaborou com o Novidades.

Continuamente Cabral relembra José Augusto Moreira de Almeida que apesar de graduado com o Curso Superior de Comércio, este nunca perdeu a sua paixão pelo jornalismo, colaborando em O Debate e O Dia, substituindo António Enes, o fundador. Embora com certa dificuldade, escrevia artigos notáveis e importantes, claros e de fácil compreensão.

Refere Dr. Aníbal Soares, escritor/ jornalista monárquico de O Nacional e do Correio da Manhã. Bacharel de Direito, por Coimbra, de estilo irónico, satírico e apimentado, dedicou-se de corpo e alma ao mundo do jornalismo.

Posteriormente Cabral recorda Oliveira Martins escritor no Jornal do Commercio, no Repórter, em O Tempo, fundando, em 1885, A Província. Ideólogo, jornalista distinto, de estilo maravilhoso.

António Cabral refere-se também a José Luciano de Castro, ainda estudante universitário, escrevia no periódico Observador, fundando mais tarde do Campeão do Vouga, dirigindo, ainda, O Nacional. Fundou, seguidamente, com José Barbosa Leão, o Jornal do Porto. Escreveu, igualmente, artigos de alto valor, para o Correio da Noite.

António Cabral refere, ainda, nomes como D. João de Alarcão, Dr. Eduardo Burnay, Anselmo de Andrade e Dr. Brito Camacho, figuras ilustres do jornalismo português desta época.

Realça em última análise, jornalistas do Porto (Borges de Avelar, Urbano Loureiro, Agustinho Albano – do Diário da Tarde -, Dr. Germano Vieira de Meireles e José Sampaio), Coimbra (Joaquim Martins de Carvalho) e de Aveiro (Homem Cristo), concluindo, assim, esta primeira análise relativa aos jornalistas portugueses do século XIX.

Capítulo II (pp. 59-72)

Neste segundo capítulo António Cabral traçar os momentos mais importantes da sua vida como jornalista. Assinala os anos de 1877/78 como os primeiros anos de escrita jornalística, por altura da Regeneração, em que Fontes Pereira de Melo presidia o ministério. O Dr. Francisco da Cunha Coutinho representava o governo em Baião, terra natal do autor. António Cabral combate ferozmente Cunha Coutinho em correspondências políticas enviadas de Baião ao Jornal do Porto, cujo proprietário e editor era Cruz Coutinho.

Numa “ prosa hesitante, irregular, onde (…), borbulhariam numerosos e graves defeitos” (p. 61), o jovem António Cabral (entre os seus catorze e quinze anos) colocava à luz do dia as desonras do Dr. Cunha Coutinho.

Em 1880, António Cabral goza férias em Barcelos, referindo o Dr. Rodrigo Veloso, homem de uma inteligência brilhante, uma verdadeira autoridade em questões de jurisprudência, cujo estilo, embora complicado e duro, não deixava de ter fervor e extrema qualidade, tendo sido o autor do livro Folhas ao vento e fundador dos periódicos Phosphoro (1860) e Tira-teimas (1861), nos quais António Cabral chega a participar.

Seguem-se os anos de vida académica de António Cabral, terminando em 1886 a sua formatura na Faculdade de Direito de Coimbra, época do governo de José Luciano de Castro como presidente do conselho do Partido Progressista.

António Cabral, em 1887 é nomeado administrador do concelho de Marco de Canaveses, onde defende a honra do seu irmão, Alexandre Cabral, no semanário A Verdade, fundado por Adriano José de Carvalho e Melo, opondo-se tenazmente a Emídio Navarro. Retorna, entretanto, à Figueira da Foz, passando a assinar, sob o pseudónimo de Gaspar Ethyope, crónicas literárias intituladas Pela Praia, no bissemanário Gazeta da Figueira, fundado por Augusto Veiga.

Cabral relembra a importância do encontro com Manuel Pinheiro Chagas, na sua passagem pela Figueira, assim como a crónica sequente a esse encontro, atenciosamente recebida por Pinheiro Chagas, sendo, inclusive, referida no Correio da Manhã de Lisboa (propriedade do enaltecido político). António Cabral publicou, com certa assiduidade, as suas crónicas literárias na Gazeta da Figueira, até ao ano de 1889. Neste ano é nomeado delegado do Procurador Régio na Comarca de Moncorvo, continuando as suas publicações na Gazeta da Figueira, escrevendo as suas crónicas, igualmente, a partir de 1890, n’ O 8 de Maio, outro bissemanário da Figueira da Foz, dirigido pelo Dr. Elísio Freire de Abreu Pessoa, atribuindo-lhes o título de Entre montanhas e escrevendo, ainda, sob o mesmo pseudónimo.

Após o Ultimatum britânico e o sequente suicídio de Camilo Castelo-Branco, António Cabral regista esta página negra da história e da literatura portuguesas, n’ O 8 de Maio, terminando no final desse ano (1890), a sua colaboração neste bissemanário, com uma crónica intitulada Um sonho, um hino à liberdade e à esperança do país.

Termina este capítulo recordando todas as críticas e apoios que teve nesta sua primeira fase de jornalista, considerando, ambas as posições, fundamentais à sua edificação e consolidação da sua carreira jornalística.

Capítulo III (pp. 73-94)

Neste capítulo António Cabral relata a sua chegada e passagem por Lisboa, entre os anos de 1897 e 1900, iniciando-se, na primeira data, na redacção do Partido Progressista Correio da Noite, que funcionava, sobretudo, como centro de discussão política relacionada com o estado social, político e económico da nação.

Ressalva como frequentadores do Correio da Noite, nomes como Eduardo José Coelho (político alcunhado de violento, dado o seu carácter apaixonado), Luís de Melo Bandeira Coelho (general e deputado influente que abriu caminhos a António Cabral no mundo da política), Francisco José Machado, D. João de Alarcão, José d’Alpoim, Francisco Cabral Metelo (membros penetrantes do Partido Progressista).

Após a queda do poder regenerador, ainda nesse ano, sobe ao poder José Luciano de Castro pelo Partido Progressista, conduzindo os contra progressistas a uma reacção imediata ao novo poder, colidindo com os interesses políticos do autor e arrastando à publicação de artigos políticos no Correio da Noite, intitulando-se o primeiro Violências e Perseguições.
Simultaneamente escreve artigos políticos intitulados Chronicas Lisboetas no periódico Moncorvo, em revistas politicas, como correspondente político de Lisboa, n’O Primeiro de Janeiro do Porto. Conjuntamente assina as Chronicas da Capital no semanário de Marco de Canaveses, A Verdade.

Após esclarecimentos públicos, a gazetas oposicionistas, sobre a identidade, até então não reconhecida do autor, este refere a notícia da formação do grupo dos Endireitas, novo agrupamento partidário, presidido por João Franco, com a finalidade de reequilibrar as finanças e a politica. Havia chegado a Era do franquismo.

A contra-resposta, assinada por Luís de Magalhães, chega dias mais tarde no jornal A Tarde, seguida do programa político dos Endireitas. Contínuas são as discussões políticas escritas pelos jornais portugueses, reflectindo todo um período de descontentamento político, social e económico.

Em 1899, o autor aconselha José d’Alpoim a realizar uma proposta de lei que institua em Portugal a Assistência Judiciária, cujo relatório é redigido e relatado na Câmara dos Deputados, pelo autor.

Nos dias seguintes, António Cabral defende e explica a referida proposta nos jornais Correio da Noite e n´O Primeiro de Janeiro, recebendo, ao mesmo tempo, congratulações e críticas.

Para além de artigos políticos António Cabral assinava, igualmente, artigos comemorativos (como em 1899, n´A Província, pela celebração do centenário do nascimento de Almeida Garrett).

Entre guerras politicas e artigos de interesse cultural e nacional, o autor, jornalista pro bono e deputado progressista, assinava cada vez mais artigos, em inúmeros jornais relatando e comentando, sobretudo acontecimentos históricos relevantes de uma Lisboa dividida.

Inicia em 1898 a sua longa contribuição no semanário de Marco de Canaveses A Verdade, concluindo a mesma no ano de 1904.
Por esta altura surge no Porto uma epidemia peste bubónica, que ao ameaçar espalhar-se por Portugal, é atacada pela Junta de Saúde, acarretando críticas políticas severíssimas, às quais o autor responde, colocando em risco a reputação do jornal O Primeiro de Janeiro (Porto) do qual era correspondente. Ao demitir-se do cargo de correspondente, zelando pela idoneidade do jornal, António Cabral sofre um falsete, por parte do mesmo que fraudulentamente adultera o conteúdo do artigo a ser publicado.
Este episódio toma proporções excessivas, visto que contribui para um retrocesso da vida política do autor que, embora não remunerado, escreveu durante muito tempo para O Primeiro de Janeiro. No entanto este episódio negativo, ao afastar António Cabral do cargo de correspondente de Lisboa, levará O Primeiro de Janeiro, em anos sequentes a pedidos e favores políticos e particulares, desta feita a um António Cabral na posição de deputado conceituado.

Cabral refere, porém, o nome de Gaspar Ferreira Baltar que, então falecido, não consegue impedir a calúnia que O Primeiro de Janeiro comete sobre si. Apesar de tudo, António Cabral escreve neste jornal entre 31 de Março de 1897 e 13 de Março de 1900, recordando com saudade os pesados esforços sofridos enquanto deputado jornalista dividido entre eleitorado e leitores.

Capítulo IV (pp. 95-120)

A pedido de Luís de Melo Bandeira Coelho, António Cabral começa a escrever, gratuitamente, como correspondente, no periódico O Districto de Vizeu, a 3 de Agosto de 1900, sempre a favor do Partido Progressista.

Escreve, simultaneamente, desde 1898, n´A Verdade, pelos progressistas do círculo de Marco de Canaveses. Em 1902, Cabral começa a escrever artigos políticos e literários no jornal O Dia (dirigido por José d`Alpoim), intitulados Vida Velha…, A noite de Santo António, Politica de Bárbaros, Camillo Castello-Branco, Dois anos de governança, entre outros, sendo este último um artigo crítico ao governo da Regeneração. Entretanto as lutas políticas e jornalísticas mantêm-se entre O Dia (Progressista) e A Tarde (Regenerador).

António Cabral colabora com o semanário político O Progresso, de S. Pedro do Sul como correspondente, escrevendo artigos como Começos d´Inverno, Na Lama e O novo empréstimo.

Em O Dia publica o artigo político decisivo Impenitentes, atacando o governo regenerador de Hintze Ribeiro, publicando, ainda, no ano de 1903, muitos artigos como Quem Vier Atrás…, A Mascarada, Dissidências, Supremo Attentado, Amnistia? Esboçando, igualmente, artigos de cariz literário ou histórico como Camillo Castello-Branco ou Waterloo. De entre os demais artigos escritos para este jornal, ressalva o de Fevereiro de 1904, intitulado Palavras, palavras!…, onde comenta e critica a peregrinação franquista (João Franco) por todo o país sob forma de propaganda política, recebendo, imediatamente, resposta por parte do Diário Illustrado de João Franco.

A 20 de Outubro de 1904 sobe ao poder o Partido Progressista, incrementando a vida parlamentar do autor, decrescendo, sequentemente, a sua produção jornalística, agravando-se esta situação com a sua entrada no governo, como Ministro das Obras Públicas, em 1905.

Surge, entretanto, a época da traição politica de José d’Alpoim devido a uma ambição maior, decisão não aplaudida por António Cabral, o autor, que, apoiando José Luciano, critica a decisão d’Alpoim.

Em 1906 cai o ministério progressista, demorando-se, ainda, Hintze Ribeiro 58 difíceis dias no Conselho da Coroa, seguindo-se o governo de João Franco, o qual apoiado por António Cabral e seu irmão (Alexandre Cabral) por imposição ética do pacto de “concentração-liberal” que aliava o Partido Progressista ao Presidente do Conselho de Ministros.

Em Setembro de 1906, torna-se necessária a recomposição Ministerial, recorrendo-se ao apoio de António Cabral na sua constituição, o que levanta novas calúnias, infâmias e provocações por parte d’ O Primeiro de Janeiro, às quais o autor não responde. Continuamente Cabral, como parlamentar, vê-se forçado a refutar na Câmara dos Deputados todas as ofensas verbais de José d’Alpoim, contrariando todas as calúnias e injustas críticas apresentadas por este, relativamente ao autor e ao Partido Progressista. Esta acção de António Cabral resultará num retrocesso de José d’Alpoim, que se vê forçado a asseverar na Câmara dos Pares, que não pretendia magoar qualquer membro do Partido Progressista.

Entretanto o autor passa a assinar no periódico Jornal do Porto, como correspondente, Chronicas Politicas, funcionando este como veículo de comunicação de ideias progressistas e anti José d’Alpoim, que se torna no principal alvo de António Cabral, e da sua luta restauradora de justiça. Inicia-se, assim, uma nova luta entre Progressistas (Jornal do Porto e Correio da Noite), amplamente divulgados, e Regeneradores (O Dia, O Primeiro de Janeiro). Após inúmeros artigos políticos, José d’Alpoim recua definitivamente (com a sua carreira política totalmente demolida) transformando os artigos de António Cabral em hinos de justiça publicados pelo Jornal do Porto.

Encontramo-nos no ano de 1907, presidindo, o ministério, João Franco desde 1906 e, devido a dificuldades governamentais, recorre a José Luciano de Castro, chefe do Partido Progressista. Vive-se uma época de insatisfação social, de tumultos políticos, de guerra aberta entre três frentes: Regeneradores, Progressistas, Monarquia. Estalam as rebeliões no Porto, prejudicando toda a nação.

Entretanto João Franco tenta implementar a lei de imprensa que António Cabral e José Luciano de Castro condenavam, mas que, tendo em conta o pacto de “concentração-liberal”, apoiavam antevendo a intensificação da crise Ministerial e a necessidade de a restabelecer, sem que para tal se substituísse João Franco.

Corria o ano de 1907 e a pedido de José Luciano, Cabral passa a assinar as suas Chronicas Politicas no Correio da Noite, sem qualquer censura prévia. Contra a imposição desta nova lei (lei da imprensa), a Associação de Jornalistas vota-se ao silêncio. Opostamente António Cabral, deixa de ser sócio da Associação de Jornalistas de Lisboa, publicando na primeira Chronica Politica do Correio da Noite as suas críticas, ridicularizando o voto de silêncio dos seus colegas, apoiando assim as decisões de João Franco, da Monarquia, pondo Barbosa Colen que praticava a crítica fácil contra El-Rei D. Carlos, leitor e admirador das crónicas de António Cabral. Identicamente José Luciano, chefe do Partido Progressista, tal como El-Rei, acreditava ter encontrado em António Cabral, um verdadeiro jornalista.

Tendo em consideração as ondas de boatos políticos, Cabral assina na sua coluna Chronica Politica, Ilusões perdidas…, atacando a tentativa fracassada de ascensão à posição de João Franco levada a cabo por Júlio de Villena.

Em Abril de 1907 João Franco encerra precipitadamente as cortes. António Cabral defende esta posição de Franco, acreditando que o gabinete da sua presidência cometera contra ele “uma oposição de bandidos, que ardia em anciãs de conquistar o poder para cravar as unhas aduncas no Thesouro Publico” (p.112).

Seguidamente, dentro dos parâmetros legais, António Cabral incita não à ditadura, mas à defesa de João Franco e, sequentemente, da nação. Como consequência das afirmações de António Cabral, surgem críticas por parte da oposição, combatendo assim o autor, no Correio da Noite com Politica de encruzilhada, ou seja, política de bandidos, conduzindo ao duelo de pistolas entre António Cabral e José d’Alpoim, a 18 de Abril de 1907, na Serra de Monsanto. Contudo a luta entre Novidades, por Barbosa Colen, e o Correio da Noite, assinado por Cabral, perdura, havendo acusações mútuas de banditismo político. O combate jornalístico e político, entre Colen e Cabral, termina com as Chronicas Proezas dos Bandidos e Ainda os Bandidos, às quais Colen não respondeu, depositando armas.

Em Maio de 1907, o Diário do Governo, publica os primeiros decretos ditatoriais elaborados por João Franco. Desfaz-se assim a “concentração-liberal”, na qual o Partido Progressista havia depositado enorme fé. No mesmo mês, António Cabral na Chronica Politica, intitulada Momento Grave, expõe toda a situação a que o Partido Progressista havia sido exposto e vitimado. Outros artigos se seguem deste primeiro, denunciando todas as deslealdades acometidas contra os Progressistas, após tanta cooperação, inter ajuda e defesa.

António Cabral, que, até então, defendera a coligação “concentração-liberal”, de uma forma acérrima, passa a ser o seu maior oponente. Assim em Junho, por altura da visita de João Franco ao centro do seu grupo, o autor tece, em estilo bíblico, A Voz do Propheta, que declama, envergonhando e desacreditando Franco, perante todos.

Contanto não depõe armas e luta arduamente contra um traidor da pátria que optou pelo caminho da ditadura, conduzindo o país a numerosos tumultos, aos quais esteve inclusive exposto. Comenta, então, esta situação em O povo assassinado! Gritando Aqui d’El-Rei! Expondo a situação social dramática do país, não atacando, contudo, a família real. António Cabral suspende em Julho de 1907, as suas Chronicas Politicas e exila-se no estrangeiro devido à forte tensão, censura e supressão de inúmeros jornais nacionais.

Retorna em Outubro de 1908 às suas Chronicas Politicas pelo Correio da Noite, com Politica…à parte, incutido de uma política individual, mas disciplinada, justa e partidária. Combate com a sua primeira Chronica, sub titulada Os impacientes, João Franco, Júlio de Villena, José de’Alpoim, Teixeira de Sousa, pelas suas péssimas políticas, corruptoras para o país, agentes da destruição e destabilização do país. Nas crónicas seguintes, inscritas no espaço de alguns meses, que passo a enumerar, ocupa-se no combate aos republicanos: Moralidade Republicana, Comparando…, Se a Republica Viesse…, Ameaças Republicanas, A República Gloriosa…, A obra da República e Dictadura Republicana.

Cabral combatia, simultaneamente, a facção progressista de José d’ Alpoim associada ao republicanismo. Publica, assim, no Correio da Noite, Politica…à parte, a crónica com o subtítulo de A Dissidência, Queremos o Poder! Dissidentes e Republicanos, Podia Lá Ser! E Para Sempre!

Ao combater os republicanos, glorificava continuamente a monarquia, escrevendo Viagem Triumphal (aquando da viagem de El-Rei ao Norte) e Viva El-Rei! (por altura do seu retorno). Atribui, então, respeito, dedicação e justiça à Família Real, em oposição a colegas jornalistas que ridicularizavam e criticavam a mesma, sem qualquer sentido de ética profissional ou política.
Devido à nomeação do alto cargo de Ministro e Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, António Cabral vê-se forçado a abandonar as suas Chronicas de Politica….à parte, de modo a coerentemente exercer as suas funções políticas.

Capítulo V (pp. 121-150)

António Cabral neste capitulo aborda a sua passagem pelo diário O Liberal, adquirido enquanto exercia funções de Ministro da Marinha e Ultramar, tornando-o no seu órgão político, impresso de acordo com os princípios do Partido Progressista, podendo, assim, atacar e defender-se em plena liberdade. Mais tarde, Cabral consegue este diário visto que o seu antigo director, o advogado Carneiro de Moura, havia decidido terminar a sua publicação trespassando-o, assim, ao autor.

Devido à sua qualidade como político, tornava-se, inicialmente, inviável a sua total participação no diário, pelo que entrega a directoria provisória ao Padre Adriano Guerra, a redacção do artigo de fundo a cargo de Caetano José Dias, as Criticas e Factos a cargo de Emílio Sampaio e Melo, sendo O Roteiro Politico comentado pelo deputado progressista Alexandre de Albuquerque.
Embora discordante em relação ao título do seu recém-adquirido diário O Liberal, opta por manter o nome, visto que se tratava já de um diário conhecido e com bastante saída, podendo, uma eventual mudança de título causar alguns contratempos financeiros, publicando-se o seu primeiro número no dia 15 de Março de 1909.

Entretanto O Liberal é ferozmente atacado por um jornal do Porto, ao qual Alexandre de Albuquerque não ficou indiferente, respondendo imediatamente.

A questão das unhas aduncas, referida no capítulo anterior, retorna à ribalta por intermédio do Diário Illustrado, órgão de cariz franquista, como provocação a actos políticos do autor enquanto Ministro da Marinha e do Ultramar. Esse criticado acto, extremamente moroso, tratava-se da exoneração de alguns governadores franquistas do Ultramar, assim como a concessão de recompensas a oficiais e praças colocados na campanha guineense. Tendo em conta que o Diário Illustrado pretendia respostas imediatas, o autor, não dispondo de O Liberal, respondia aos ataques através do órgão progressista Correio da Noite. Assim sendo, o Illustrado insinua a adesão do Partido Progressista à facção das unhas aduncas, o que o Correio da Noite contraria, argumentando ter ficado constantemente ao lado da lei e da Constituição, em oposição a João Franco, que, em ditadura, se apodera do Tesouro Público.

Em resposta ao deputado Malheiro Reimão e após inúmeras peripécias políticas, o autor envia à Câmara Alta, para o Diário do Governo, os documentos que “ (…) faziam prova de que durante a ditadura do governo de Franco, haviam sido feitos adiantamentos ilegais a muitíssimos funcionários que a esses adiantamentos não tinham direito.”. (página 125) Esta documentação comprova, assim, toda a mora na avaliação das recompensas e dispensas a oficiais do Ultramar, assim como o mau serviço prestado por Franco à Monarquia e a Portugal.

Demoradas e longas foram as lutas entre estes dois jornais (Correio da Noite e Diário Illustrado) até que, após a demissão do Ministério e aquisição definitiva de O Liberal, o autor, António Cabral, inicia o seu contra-ataque politico-jornalístico, no que concerne ao caso unhas aduncas, culminando com o silêncio dos seus opositores. Passa o autor, a partir deste momento, a redigir diariamente o artigo de fundo de O Liberal, tornando-se Alexandre Albuquerque no director, redigindo, simultaneamente, a secção Roteiro Politico, ao passo que o Padre Adriano Guerra e Eugénio de Sampaio e Melo comentavam os acontecimentos sociais mais importantes.

Reuniam-se na redacção de O Liberal figuras ilustres do Partido Progressista, como Alexandre Cabral, o general e par do Reino Luís Bandeira Coelho, D. João de Alarcão, o conselheiro Eduardo José Coelho, o conselheiro Francisco Cabral Metelo, o general Macedo Lacerda, o par do Reino Francisco José Machado, os deputados Meneses e Vasconcelos, Aurélio Pinto, Lacerda Ravasco, Frederico Ramires, entre outros. Entre tertúlias e discussões acesas, António Cabral escrevia tranquilamente os seus artigos de fundo preparando-os para a tipografia do jornal.

Ainda detentor da pasta da Marinha na Câmara dos Deputados, a oposição desenvolve ataques fisicamente violentos e destruidores aos quais o autor responde criticamente com um artigo de fundo n’ O Liberal, com o título Fora os Desordeiros!
Como político providente e prevenido que é, o autor escreve e publica o artigo Só o Exército?, em que apelava, a propósito dos tumultos parlamentares da oposição, à intervenção do exército português, concluindo, entretanto, o autor e político que o que acaba por acontecer em 1926 (revolução militar) deveria ter acontecido em 1909.

A acção política e jornalística prévia do autor conduz ao abandono da pasta de Ministro da Marinha e do Ultramar, tendo em conta que a gazeta do Dr. Brito Camacho, A Lucta, o acusa de pretender ser o quarto poder do Estado, ao qual chamava “poder tarimbeiro”. O debate foi aceso, no entanto, leva o autor a abdicar do seu lugar parlamentar.

Em Maio de 1909, O Liberal, inaugura uma nova secção Escavações Politicas, secção que transcreve simultaneamente trechos publicados naquela época e em épocas anteriores, com o intuito de demonstrar incongruências e contradições, mudanças de opinião e facção política, conforme se tornava mais proveitoso. Desmascara-se assim aqueles falsos que se apresentavam como os verdadeiros servidores da nação, com procedimentos censuráveis, sendo José d’Alpoim o melhor representante desta época.
Publicam-se em Escavações Politicas, subtítulos como O Sr. José Luciano, Antes e Depois, expondo os demais inimigos da Nação e as suas contraditórias acções, transcrevendo provas de incoerência política de homens públicos. Desta forma, O Liberal castigava o procedimento ilegal do Ministério da Justiça e Câmara dos Deputados, contribuindo, consequentemente, para a demissão de ministros e deputados, funcionando, até esta altura, O Liberal como o mais alto órgão político-justiceiro.

Em Agosto de 1909, o autor parte rumo a Alemanha, de modo a restabelecer a sua saúde debilitada, retornando em Outubro, do mesmo ano, e deparando com uma situação política intensamente destabilizada.

Para além das secções políticas, O Liberal publicava, igualmente, um folheto intitulado Carta Aberta ao Sr. Conselheiro António Cabral, passando o autor a enumerar as mais relevantes. Esta secção apresenta temas relacionados com a política, sobretudo do Ultramar, onde problemas e carências são constantemente relatados, indicando, ao mesmo tempo, um pedido de auxílio indirecto a António Cabral, ex-Ministro da Marinha e do Ultramar.

É chegado o trágico ano de 1910. A desastrosa presidência governamental de Teixeira de Sousa minou completamente as fundações da Monarquia portuguesa, conduzindo à sua queda, iniciada pelo regicídio e culminando com a ascensão da República.
Este desenrolar de acontecimentos já havia sido previsto em inúmeros artigos do autor como: A Defeza da Monarchia, Republicanos e Dissidentes, A Responsabilidade dos republicanos, Defenda-se a Monarchia!, Os Escândalos da Republica, A Fallencia d’um Partido, Eternas Luminarias…, E…viva a republica!, A Monarchia em Perigo…, Chantecler…, Um Réu!, Moral Republicana!, Exploração Politica, O Condenado, Não pode ser!, Justiça de Moiros!, Governam os Republicanos!
O Liberal peleja arduamente, ainda nesse ano, contra o seu velho inimigo Diário Illustrado (órgão franquista de Álvaro Pinheiro Chagas) e contra o jornal regenerador do conselheiro José de Azevedo Castelo-Branco, O Imparcial.

Redigem-se, paralelamente, artigos de cariz literário, ilustrando as principais figuras e obras da literatura portuguesa e estrangeira de várias épocas, muitas vezes, mesmo, sob a forma de homenagem.

O Liberal, monárquico até à última instância, lutou constantemente em nome de El-Rei, embora com a chegada da República, o seu peso tenha diminuído. No entanto esta gazeta exerceu grande influência na opinião pública, por intermédio de combates políticos impressos nas suas páginas.

Nestas páginas o autor revelou-se como ele próprio proclama “jornalista probo e leal, português verdadeiramente fiel às nobres tradições da Pátria gloriosa, da Pátria amada e querida.”. (p. 150)

Capítulo VI (pp. 151-195)

António Cabral, que testemunha a instauração da República em 1910, demonstra o seu descontentamento perante tal acontecimento. Embora decorressem tumultos, um pouco por toda Lisboa, a 4 de Outubro este dirige-se à sede d’ O Liberal onde escreve um artigo de fundo intitulado Os Acontecimentos, onde referia as suas antevisões políticas resultantes do mau governo de Teixeira de Sousa. Refere, igualmente, o seu pesar monárquico, mas, sobretudo, a sua dor como patriota, tal a séria alteração da ordem política.

Nos dias seguintes à Instauração da República, a gazeta O Liberal não foi impressa devido à ausência dos tipógrafos. Contudo, António Cabral reaparece no dia 7 de Outubro com o artigo de fundo Coveiro da Monarchia!, no qual culpabiliza fortemente a política de Teixeira de Sousa pelo estado da nação, sublinhando, simultaneamente, o prévio papel interventivo e previdente desempenhado pela sua gazeta. Seguidamente, a 8 de Outubro em Os Erros dos Monarchicos, refere os erros cometidos, recordando a ditadura franquista e do Partido Regenerador (1901), as incongruências de José d’Alpoim no seio do Partido Progressista (1905), a ditadura estabelecida (1907), culminando com o regicídio e ruína nacional.

Nos dias seguintes inúmeros acontecimentos indisponibilizam a publicação de O Liberal, dos quais se ressalva o assalto sob o comando de um cadastrado, John Alves, que destruiria material essencial à gazeta.

Na edição de 10 de Outubro sublinha-se o artigo Porquê?…Porquê?…, que, devido ao assalto, não pôde ser publicado. Neste artigo desenhava-se uma dura crítica ao governo de Teixeira de Sousa, cuja conduta arruinaria, tanto a monarquia como a nação, explicando passo a passo, os porquês de tanta má política.

Após a reorganização e restauro da redacção e tipografia, O Liberal publica, a 24 de Outubro, um suplemento que apresenta os motivos que levaram à sua suspensão revelando a próxima data de publicação. Assim sendo, uma semana depois lança nova edição, redobrando a sua luta anti-republicana.

De modo a evitar novas represálias, António Cabral, apesar de considerar monárquica a sua gazeta, opta por classificá-la como jornal independente, assinando finalmente o seu nome na direcção desta gazeta. Publica, então, como referido anteriormente, um artigo intitulado O Nosso Programma, demarcando-se, assim, da facção republicana, mantendo o devido isolamento político.
Na edição de 2 de Novembro, com o artigo de fundo Os Adherentes, peleja contra todos os agressores da monarquia, apresentando as diferenças que distinguiam ambos os lados, mantendo, contudo, a sua coerência e dignidade políticas, em oposição a determinadas individualidades ambiciosas que, com receio de perda de posição, aderem à República. Dá como exemplo desta dissidência o Padre Lourenço de Matos que, anteriormente, atacara com ferocidade os republicanos no periódico Portugal que então dirigia.

Paralelamente dedicava, na publicação de O Liberal, artigos de cariz literário e cultural, mantendo esta agenda constantemente actualizada.

A 21 de Novembro tem início nesta gazeta, uma série de artigos, Como Cahiu a Monarchia, onde o autor explana subtítulos incomodativos como Os Velhos Partidos, O Govêrno dos 58 Dias, A Dictadura, A Desorientação, Os Conselheiros do Rei, O Ultimo Ministério – O Fim.

A Lucta de Brito Camacho, ofendida por esta série de artigos, tenta combater e ridicularizar António Cabral, alegando acontecimentos passados, mas infundados, da vida parlamentar do mesmo. Novamente, diz Cabral, se vêem forçados a retroceder, reconhecendo que a verdade e a razão repousam do lado do autor.

É, entretanto, com o pseudónimo de Ruy d’Alvôr que, a 2 de Dezembro, António Cabral, inaugura uma secção de Chronicas Literárias, com o título Pinceladas, onde, para além de abordar temáticas relacionadas com a literatura portuguesa, se volta, também, para a história.

A 6 de Dezembro tem início a publicação de uma série de artigos intitulados Cartas da Aldeia, consistindo em artigos escritos por Alexandre Cabral, irmão do autor.

O Liberal, devido ao seu carácter anti-republicano, continua a ser vendido, lido e comentado. No entanto, a recém criada República, incomodada pelos mordazes ataques desta gazeta, decreta o seu fim, a 8 de Janeiro de 1911. Neste dia, arrombam as portas da redacção, vandalizando e destruindo O Liberal na sua totalidade, restando, apenas, um manuscrito da secção Pinceladas, sob o pseudónimo de Ruy d’Alvôr, que ficou para trás, intacto. Para além do assassinato deste órgão jornalístico, dá-se o exílio de António Cabral, durante um ano, abrandando, portanto, a sua carreira jornalística.

Retorna em Julho de 1912, publicando no Diário de Noticias, sob a direcção do Dr. Alfredo da Cunha. Neste diário, escreve uma série de artigos sobre Camilo Castelo-Branco.

Colabora, em 1913, num número especial dedicado à conversão do poeta Gomes Leal ao Cristianismo, elaborando, assim, para a Voz da Juventude, órgão da Juventude Catholica de Lisboa, um artigo publicado no Natal desse mesmo ano.

Em 1914, Dr. José d’Arruela funda o Diário da Manhã, gazeta monárquica, na qual o autor participa, a 30 de Maio, com o seu primeiro artigo O Maior Delito. No entanto, por motivos de saúde, vê-se forçado a cessar, pouco tempo depois, a sua colaboração nesse jornal. Contudo, antes do seu abandono é publicado, ainda a 16 e 17 de Junho, do mesmo ano, uma entrevista realizada ao autor por Joaquim Leitão, intitulada Como Procederá a Monarchia com os Republicanos Amanhã – Conversa Com Sua Ex.ª o Sr.ª. Conselheiro António Cabral, Antigo Ministro. Nesta inteview, o autor apela à coexistência pacífica entre republicanos e monárquicos.

Em 1915 surgem em público documentos políticos, encontrados por republicanos nos Paços Reais. Esta documentação aponta para a traição monárquica. Porém, diz o autor, após investigação, o caso remete para uma traição, mas por parte de falsos monárquicos, associados a ideias republicanas. António Cabral publica, relativamente a este assunto, no Jornal da Noite (sob a direcção de Rocha Martins), um artigo defensor da monarquia e suficientemente esclarecedor.

Ainda em 1915, Cabral colabora com A Nação, jornal dirigido por João Franco Monteiro, que publica, a 4 de Março, uma entrevista ao autor, realizada por António Santos.

No mesmo mês O Nacional, sob a direcção do monárquico Dr. Aníbal Soares, Cabral publica o artigo Um Partido Conservador! Onde ridiculariza a ideia de formação de um partido conservador no seio da República.

Em 1916, no semanário Echos de Guimarães, Cabral escreve um artigo onde incita todos os monárquicos da província a auxiliar todos os correligionários naqueles tempos difíceis.

A 7 de Julho publica n’ O Commercio de Guimarães, Os Combatentes de Chaves, em comemoração da segunda incursão monárquica, chefiada por Paiva Couceiro.

A 15 de Novembro de 1915, havia já colocado em circulação O Liberal, subintitulado Jornal Monarchico Tradicionalista, sendo, mais uma vez, atacado pelos republicanos, desta feita pelo seu diário A Opinião, ao qual o autor responde com os artigos de fundo A Monarchia não Volta e Organização Monarchica.

Entretanto a 13 de Dezembro de 1916, O Liberal, onde artigos políticos e literários eram publicados (funcionando sempre os primeiros como uma crítica atenta ao funcionamento republicano) é suspenso por ordem do Governo, sendo ilegalmente presos alguns redactores e um administrador, acto contra o qual protestaram. Contudo a sua voz não foi ouvida, mantendo-se suspenso O Liberal durante um mês. Passado este período volta renovado para o ataque ao republicanismo, com o artigo de Cabral, Cumprimento de um Dever (1917), sendo fortemente censurado pelo jornal de Brito Camacho A Lucta.

Também em 1917 escreve n’O Liberal um artigo relativo à morte de Teixeira de Sousa, sob o mesmo título do nome do falecido, apresentando o mau percurso de vida, destruidor da monarquia, desta vez, amenizado pelo espírito de caridade cristã.
A 17 de Agosto de 1917 publica n’O Liberal, A Tôrre do silêncio, metaforicamente acusando o silêncio dos republicanos do alto dos seus postos, aos comentários por parte de democráticos e evolucionários.

Em Outubro desse ano, face à abertura da campanha eleitoral, o autor incita os correligionários monárquicos e conservadores ao voto, com artigos como: Á Urna! e A Campanha Eleitoral.

Em Dezembro eclode a revolução, levando Sidónio Pais ao poder. O autor assinala n’ O Liberal, mais uma vez, o estado desordenado e desorientado da República Portuguesa, num artigo intitulado Balburdia sanguinolenta, realçando-se como adversário confesso da República.

Novamente surge a campanha eleitoral e António Cabral incita monárquicos e conservadores à luta anti-republicana. Resultam destas eleições 40 deputados monárquicos no parlamento, dentre os quais o próprio autor, sendo Sidónio Pais directamente eleito Presidente da República (embora com votação inferior à de Cabral).

António Cabral, agora deputado, inicia uma campanha a favor de oficiais do exército e exilados políticos, injustamente condenados por uma República facciosa e intolerante. Escreve artigos sob forma de campanha em jornais como O Liberal, Pátria, Diário Nacional, O Dia, sendo os seus esforços compensados, estampando, a 10 de Maio, em O Liberal, o artigo Enfim! Evidenciando a sua vitória, visto que recolocara oficiais monárquicos e trouxera de volta a Portugal os exilados políticos.
Simultaneamente, ataca a República e a presidência de Sidónio Pais, pelos seus erros políticos e intolerância, tecendo, também, críticas a ex-monárquicos, agora republicanos, traidores da nação (dissidentes).

A 8 de Julho de 1918, comemora com saudade e pesar o assassinato de um fiel e destemido monárquico, o tenente Manuel Alberto Soares, ajudante de Cabral enquanto ministro da Marinha e Ultramar.

A 15 de Novembro do mesmo ano, celebra-se o segundo aniversário da reabertura de O Liberal, com artigos a cargo de António Cabral e do seu colaborador Henrique de Paiva Couceiro.

No entanto a República não descansa e prende, a 23 de Novembro, o engenheiro Teles de Vasconcelos, director de O Liberal, obrigando Cabral a ocupar, apesar da saúde debilitada, o cargo e funções de director interino.

Sidónio Pais é assassinado ingloriamente a 14 de Dezembro, incapaz de organizar a sua República Nova. O Liberal que já havia publicado anteriormente o artigo O Attentado, referindo-se à primeira tentativa de assassinato de Sidónio Pais, assinala com A Morte de Sidónio Paes, e devidos lamentos, a morte de um adversário político, tecendo, apesar de tudo, os devidos louvores.
Novamente Cabral insere um artigo Só o Exercito! Onde proclama a necessidade de intervenção das forças militares, controlando, assim, o caos instalado, salvando a nação.

A 23 desse mesmo mês e ano, António Cabral publica um artigo em que critica ferozmente todos os tumultos e ataques levados a cabo aquando do enterro de Sidónio Pais, considerando-os desrespeitosos.

Com o fecho de O Liberal, o autor coloca em circulação o diário Acção Realista, considerando-se (graças à intervenção financeira de alguns amigos) o fundador deste diário. Neste diário, o autor abre a secção Gazetilha, onde tece críticas, sob a forma de poema, a figuras caricaturáveis da época, como Cunha Leal, que ridiculariza em O Collarinho.

São incontáveis os artigos políticos ou literários elaborados por António Cabral, e igualmente incontável a participação numa variedade de jornais, como jornalista, correspondente ou director.

Colaborou, ainda com inúmeras revistas de Portugal e do Brasil, como Acção Realista (não confundir com o jornal), Revista Commercial, Vasco da Gama, Águia, O Instituto, entre outras.

Relembra, ainda, alguns volumes de memórias, onde contribuiu através da elaboração de biografias de grandes vultos da política, da história e da literatura portuguesas.

António Cabral termina este capítulo e, sequentemente, as suas memórias de jornalista, revelando uma interview, cedida a Armando Boaventura, preparada para o semanário monárquico Avante! cuja publicação não teve início.

Nesta entrevista, António Cabral, interrogado sobre os acontecimentos que contribuíram para a queda da Monarquia, para a Instauração da República e para todo o caos político económico e social do Portugal em inícios do Século XX, responde do ponto de vista pessoal, monárquico, mas acima de tudo patriótico, como verdadeiro português, deputado e jornalista que foi. Não se adianta em muitos comentários e divagações, apontando energicamente para erros governamentais, traições, problemas financeiros, mas nunca monárquicos, tendo sempre em alta estima e consideração a Família Real, as Instituições Tradicionais e, acima de tudo a figura de El-Rei.
Condena a República e tudo aquilo que ela representa, tendo em consideração a sua conduta traiçoeira e corruptora da Monarquia. Relembra todos os dissidentes que, por ambições pessoais, saltitaram de facção em facção, procurando constantemente a satisfação dos seus interesses, negligenciando aquilo que deveria estar em primeiro lugar: Portugal.
Em última análise, António Cabral acredita na instauração de um Nova Monarquia, com base na figura do Rei, tutelando duas Comissões (Consultiva e Executiva), de modo a melhor responder às necessidades sociais, equilibrando sobretudo o estado financeiro caótico da nação.

Refere, em último lugar que não podemos esquecer a nossa localização geográfica, a nossa história, a nossa tradição, que, apesar do nosso reduzido tamanho, sempre foram reconhecidas pelo estrangeiro, mantendo o seu respeito admiração e amizade. Assim, o Portugal monárquico “ viverá nobremente, afagado pela alta consideração de todos os povos do Mundo!”. (p. 194)


Nome: Ana Isabel Moreira Couto
E-mail: ana-couto@hotmail.com
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Jornalismo UFP,
27/05/2010, 10:20