Schwalbach, E. (1944)

SCHWALBACH, Eduardo (1944). À Lareira do Passado: Memórias.

Autor: SCHWALBACH, Eduardo
Ano de elaboração (caso não coincida com ano de publicação)
Ano de publicação/impressão: 1944
Título completo da obra: Lareira do Passado – Memórias
Tema PRINCIPAL: Jornalismo e Vida Profissional
Local de edição: Lisboa
Editora: Edição do Autor
Número de páginas: 341

Cota na Biblioteca Nacional e noutras bibliotecas públicas
Biblioteca: Biblioteca Publica Municipal do Porto

Cotas: Biblioteca: Biblioteca Nacional Cotas: L 31608 V – L 13108V


Esboço biográfico sobre o autor ou autores (nascimento, morte, profissão, etc.)

Eduardo Schwalback fez a sua estreia no jornalismo no Diário da Manhã, onde começou com a publicação de um folhetim.

Mais tarde, ficou responsável por toda a redacção do Diário Ilustrado que, posteriormente, passou a chamar-se Correio da Manhã. Fez várias viagens para dar cobertura à família real. Trabalhou no Jornal do Comércio, no Diário Popular, no Correio da Noite (onde as condições salariais eram tentadoras). Participou em convívios partidários e fundou o seu próprio jornal, A Tarde, que mais tarde se fundiu com a Gazeta de Portugal, onde Schwalbach passou a ser um simples redactor. Teve grandes êxitos no teatro de revista, onde chegou pela mão de amigos. Foi director do Conservatório, foi redactor da câmara dos Pares.

Conheceu o director do Século, que lhe entregou a direcção do Século de Portugal e Colónias. Dirigiu a publicação da Revista Literária, Cientifica e Artística. Foi director do Diário de Noticias, onde promoveu campanhas de sensibilização e solidariedade e deu início a publicações como Notícias Comercial, Industrial e Financeiro, Notícias Insular e Colonial, Notícias Pedagógico, Notícias Teatral e Notícias Miudinho.


Índice da obra

Prefácio: p.7

I Parte – Travessia da Vida
Saudades de mim próprio: p.17
Porque fui como fui: p.25
Maravalhas – A minha assinatura – Entre a cruz e a espada – Aguarelas da rua – Cupido entra em cena – A primeira ferida – Eu e a trompa – O Pantera: p.37
Um Parêntese: p.53
A minha estreia jornalística e literária – O “Diário da Manhã” – Pinheiro Chagas – Ouro por latão – Como elas se armam!: p. 65
Touros e touradas – Os jantares do Restaurant Club – Bulhão pato – Um discurso de Júlio Dantas – Shyloch bombardeado – O aguinhas: p.81
Um voo sobre Lisboa – Um casamento célebre…: p. 97
Viagem da Família Real ao norte do País – D. Luiz I – José Luciano de Castro – Notável paralelismo político – Uma cena confrangedora – Os serões em casa do chefe do partido Progressista – Quebram-se as minhas relações com Sua Excelência – A Tarde – Lopo Vaz – O 31 de Janeiro e António Cândido: p.113
Rápido panorama – Encontro feliz – O íntimo – El-Rei D. Carlos: p.141
O teatro e como eu o trabalhava – O D. Maria II de então – Rosa Damasceno e a grande Rachel – As primeiras figuras daquele palco – Ora o papagaio! – O sacrifício meu “leit-motiv”: p.151
Um nobilíssimo acto de João Franco – Um charuto de meio tostão e uma cigarreira de prata: p.163
A força da minha atracção sobre José Luciano de Castro, João Franco e Hintze Ribeiro – Fialho de Almeida e a Santa Umbelina – Reconhecimento de um erro – Silva Pinto e Brito Camacho – Rafael Bordalo e a jarra de Beethoven – Uma coincidência curiosa: p.173
Sousa Bastos e Palmira Bastos – A minha primeira revista – Carlos lobo de Ávila – Marcelino Mesquita e uma carta do grande dramaturgo – A maldade humana: p.185
Pró domo mea – Política e Literatura – A cisão de João Franco – a reforma do conservatório – O meu primeiro duelo – O quarto centenário da fundação do Teatro Português – Um decreto célebre – A questão dos tabacos – A vida elegante em “puntas” – Magalhães Lima e Silva Graça – “O Século” – O beco do Fala só: p.199
Hintze Ribeiro – As suas superstições – a sua intangibilidade hierárquica – Duas lições: uma de D. Carlos, outra de Hintze Ribeiro – A aflição do chefe ante uma dádiva – A falsidade do seu apoio à dissidência alpoinista – O seu apreço à dignidade própria e alheia – Um telegrama histórico e inédito – O seu amor ao Rei: p. 223
Uma sessão memorável – Os adeantamentos à Casa Real – Um ponto de interrogação – O preto Furunando – Discursos à hora – O aviário parlamentar: p. 241
Um erro político – O meu segundo duelo – O alegre mundo elegante – Le roi est mort vive le roi! – Júlio de Vilhena – Sol de Abril – chas sobre achas – Dez minutos com a Rainha: p. 253
Nuvem negra em céu azul – Os Postiços – A corrida dos ministérios – Um quarto de hora com D. Manuel II – Uma acusação injusta e uma falsa esperança – Enfim os monárquicos fazem aos republicanos a surpreza de implantar a Republica: p. 267
Num relance, da Republica ao Estado Novo – Um epitáfio justo – As pardalitas levantam voo, as borboletas procuram a chama – Tartufo desmascara-se – António José de Almeida – Uma instância de Afonso Costa: p. 287
O regresso ao teatro – O boneco de sabugo – Franca expansão do dr. Manuel de Arriaga – Reaparece o Cavaleiro da Aventura – Inicia-se o meu esforço patriótico – O Dia do Juízo – O ovo de Colombo – Ao Deus dará – Uma alta distinção de Sidónio Pais: p. 301
As minhas ultimas peças – Uma lágrima entre risos – Uma entrevista com Afonso Costa: p. 319
No “Diário de Notícias” – O beijo “cocktail” – Duas palavras amigas: p. 331

II Parte – Ouro Antigo
Sacrário de relíquias – Carlos Borges – Vasco Borges – Gervásio Lobato – Urbano de Castro – D. João da Câmara – Lopes de Mendonça: p. 347
Canteirinho de benquerenças – Marcelino Mesquita – Malheiro Dias – Rafael Bordalo Pinheiro – Lino Ferreira – Abel Moutinho – João Igreja: p.373


Resumo da obra (linhas mestras)

Antes de iniciar a “Travessia da Vida”, a primeira parte da obra, retratando o seu percurso jornalístico e literário até 26 de Maio de 1926, o autor fez questão de informar de forma enfatizada numa “Declaração Importante” que “nestas Memórias apenas me ocuparei do que fiz, vi e ouvi directamente” (p.13), assumindo assim o compromisso da verdade.

Muito jovem, o autor fez a sua estreia jornalística e literária com a publicação de um folhetim (na primeira página), logo no dia imediato à sua entrada no “Diário da Manhã”, “o jornal mais literário do país sob a égide do jornalista mais brilhante daquela época”, Manuel Pinheiro Chagas (p. 68). À ilusão e deslumbramento que conduziu o seu pensamento até à perpetuidade, colocando-o ao lado de escritores imortais, seguiu-se a desilusão. Porém, o gosto pelo trabalho e as próprias dificuldades alentavam o espírito. Foi também, o ambiente de “ liberdade, desafogo” (p. 70) e “estreita camaradagem” (idem), sob a direcção do chefe que admirava pela “eloquência” (idem) da escrita, “vivacidade do seu espírito” (p. 75) e pelas qualidades como pessoa “adorável, honrada e admirável” (p. 70) que desenvolveu competências e intensificou o interesse pela actividade jornalística, levando-o a tirar o curso de jornalismo. O autor destaca o muito que aprendeu no “Diário da Manhã”, considerando ter sido uma experiência marcante, uma escola da vida, no dizer do próprio autor uma “recruta” (p. 76) que o preparou para enfrentar novos desafios.

Seguiu-se nova experiência. Assim, a pedido do director do “Diário Ilustrado”, Pedro Correia, indicado por Pinheiro Chagas, com o intuito de tornar “o jornal o mais alegre e literário possível” (p. 76), ficou responsável por toda a redacção, excepto da edição política, acumulando com o trabalho no que passou a chamar-se “Correio da Manhã”.

Entretanto, o exercício do jornalismo de Eduardo Schwalbach não se limitava às quatro paredes do jornal. Para dar cobertura à viagem da família real, deslocou-se a Madrid assim como quase toda a imprensa lisboeta. Conforme narra, na “Sociedade de Jornalistas e Homens de Letras” onde os jornalistas foram recebidos, aconteceram com ele duas situações imprevistas e de algum embaraço. Num jantar em que o próprio “fizera as devidas honras” (p. 77), sentiu uma “revolução intestinal difícil de sufocar” (idem) e, a primeira pessoa a quem se dirigiu foi a um homem de meia-idade que se encontrava a passear na “Sociedade”. Qual não seria o seu espanto quando esse homem lhe fora apresentado por Pinheiro Chagas como sendo “O sr. Nunez de Arce, um dos maiores poetas da Espanha, ministro das Colónias e presidente desta Sociedade” (p. 78).

Muito comunicativo e de temperamento alegre granjeava amizades facilmente, por isso, quando a actividade no “Jornal do Comércio” decorria de forma calma foi convidado por um amigo, proprietário do “Diário Popular” para fazer a reportagem da visita da família real ao Norte. Entretanto, já havia dado provas das suas aptidões, através de artigos que lhe deram alguma projecção e que escrevera para o mesmo jornal. Perante a contrariedade de não acompanhamento na viagem, alguns jornalistas já pensavam em desistir. Porém, determinado e confiante na sorte, apelando às antigas amizades e empenhando a sua responsabilidade, conseguiu uma contra-ordem. Na mesma noite escreveu o seu primeiro artigo para o “Diário Popular”, tendo merecido “palmas e chamada do autor” (p.117). Foi durante esta estadia, em contextos informais que o autor teve o seu primeiro contacto com a política, acabando por criar laços afectivos com algumas personalidades que mais tarde o conduziriam para uma nova experiência profissional.

Inesperadamente, recebeu o convite de ficar com quase toda a responsabilidade do jornal “Correio da Noite”, uma gazeta afecta à política. Teve alguma relutância em aceitar, mas as condições salariais eram tentadoras.

Contratado, para o “Correio da Noite” a política começou a pairar sobre si, sentindo-se no dever de participar em convívios vulgares, mas de cariz partidário (mais por delicadeza do que por convicção) que em pouco tempo se tornaram fastidiosos e fizeram baixar a estima em que o tinham em conta; no jornal, desempenhou com isenção as suas funções e trabalhou com afinco, competindo com famosos repórteres, em reportagens, também famosas. Um conflito de interesses políticos veio provocar a sua saída.

Eduardo Schwalbach partiu, então, à aventura, perseguido pelo sonho de “fundar um jornal” (p. 128) que preenchesse uma lacuna no tempo, “onde eu livremente pusesse toda a minha actividade e visão jornalística” (idem). Assim, nasceu “A Tarde”, com parcos recursos financeiros e um corpo redactorial restrito. As grandes reportagens e os artigos de fundo fizeram triunfar o jornal, de tal modo que despertou o interesse de outro grande diário: “O Século”. Bom para a saúde económica, mas contra os seus princípios.

Sem apoios económicos, “A Tarde” ia sobrevivendo à custa de sacrifícios e peripécias; a crise agudizava-se e o jornal estava à beira do fim; não havia outro remédio senão a sujeição, aos interesses político/partidários. A Schwalbach “metido à força na política” (p. 131) restava-lhe a consolação de poder continuar a fazer o que gostava, pois não era o responsável pela política. E, continuou a fazer prosperar o seu jornal, publicando reportagens gráficas, arquitectando e planeando edições cativantes que conquistavam cada vez mais o apoio popular. Apanhada na trama, servindo interesses políticos do patrocinador e não seguindo a onda de contestação popular, “A Tarde” sofreu um duro corte financeiro. O jornal chegou ao fim com a perda de confiança política. Sem meios para fazer face aos investimentos feitos, acabou por fechar portas e fundir-se com a “Gazeta de Portugal” (um órgão partidário), onde passou a ser um simples redactor.

Eduardo Schwalbach encontrou uma saída na escrita onde pôde dar asas à imaginação e satisfazer o seu gosto. Pela mão de amigos chegou ao teatro, obtendo grandes êxitos no teatro de revista que lhe valeram “a classificação de mestre do género” (p. 189). Norteado pelo poder educativo deste tipo de teatro, tão do agrado popular teve uma produção intensa de peças, abarcando quase todos os géneros literários e públicos variados. “Foi trabalhar a valer” (p.196) refere o autor, sem contar algumas traduções levadas à cena. Estava pois, na hora de parar.

O jovem crescera, as responsabilidades aumentaram e aceitou cargos com “sabor” político que lhe aplanaram as dificuldades da vida. Primeiro como Director do Conservatório bateu-se pela criação do Teatro Lírico Português e festejou o “4º Centenário da Fundação do Teatro”, uma festa aplaudida pela imprensa pelo seu valor educativo; mais tarde, também redactor da câmara dos Pares, numa época em que “ a indisciplina irresponsável e o alvitamento de reputações eram os grandes educadores políticos” (p.214), conheceu o administrador do “Século” e estabeleceu-se, logo entre eles, uma grande empatia, “pela vivacidade de espírito, pela sua inteligência desempoeirada, pelas suas largas vistas jornalísticas” (p.216), entregando-lhe a direcção do “Século de Portugal e Colónias” que durou pouco tempo.

Segundo o autor, num clima de liberdades sem limites, a imprensa, impelida pelo exemplo lançou-se em ataque furiosos, sem olhar a quem. O jornal “O Século” foi o iniciador destas “campanhas jornalísticas” (p.215), mas os excessos de ofensas fizeram-no cair em desgraça. Com o fim de apaziguamento, Schwalbach intervém e com o administrador, pessoa afectuosa, empreendedora e de grande capacidade de autocrítica, mas que pecava pelos “excessos”, traçam um plano para atrair leitores que se haviam afastado, entre as quais dirigir a publicação da “Revista literária, científica e artística”.

Numa altura em que o desânimo atingia o autor, eis que surgiu um novo trabalho, a sua última experiência profissional, como director do “Diário de Noticias”, que durou quinze anos, mas que, apenas dois “de trabalho e perseverança” (p.336) são lembranças que cabem nas “Memórias”, passando o resto a ser “Actualidade” (p.335). Ciente da importância de acompanhar a evolução, olhos postos na acção educativa, pontos fulcrais para o cumprimento da missão do jornalista e com o dinamismo que ressurgia, promovia campanhas, de sensibilização e solidariedade e dava início a novas publicações: “Notícias Comercial, Industrial e Financeiro”, Notícias Insular e Colonial”, “Notícias Pedagógico”, “Notícias Teatral” e “Notícias Miudinho”.

Este livro de memórias é importante porque relata o ambiente jornalístico da época (final século XIX, inicio século XX), a forma como os jornais funcionavam, a concorrência que existia entre jornais e que não interferia com a amizade entre jornalistas e directores dos mesmos (“Pedro Correia, director do “Diário Ilustrado”, pedido a Pinheiro Chagas a cedência dum dos seus rapazes para dar mais vida àquele seu jornal” – p. 76), as amizades que se estabeleciam no meio, nomeadamente entre jornalistas, ministros e, em alguns casos, até mesmo com a Família Real, etc.


Nome completo do autor da ficha bibliográfica: Daniela Alexandra Trocado Bernardo
E-mail: daniela_bernardo_757@hotmail.com

Ċ
Jornalismo UFP,
13/06/2010, 16:45